quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Do café.








Resistir à fome,
porque a memória é olfato, paladar
E tato
Resistir ao arrepio,
Quando o corpo é mais abraço e menos
Roupa.

Café.

Para tirar o gosto dele da minha boca.
Sussurra-me ao ouvido,
Bálsamos, brisas 
( algumas estrelas)
Da tua boca , o meu gosto: 
Acordes, febre, poros e pele.
corro por tuas fronteiras 
impregnando meus cabelos de céu.
Instante bruto.
imenso-me.




Ela caminha em tortas  linhas

Tatua   poemas
À tinta-sangue

Se faz riso
pele e cartilagem, 


À deriva no tempo, 
 Equilibra-se
 antiga.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014



Há um poema.  Feito de memórias, à batida exata do teu coração. 

Há um poema. Um poema em que esqueceu a magia das brincadeiras da infância, o bolinho de chuva da avó, as histórias ao pé da cadeira de balanço do avô.   Neste poema, ainda paira o mundo onde a ternura era uma janela a fechar o medo e a frieza desse tempo.

Há um poema. Procuro-o hoje nos teus gestos mais comedidos e vagos, na tua voz perdida  na solidão das cidades.   Procuro-o nas madrugadas ,quando sozinha, tua tristeza se faz derramada.

Há um poema. Deve haver mesmo esse poema perdido, num lugar que só você sabe.
Há um poema. Persigo-o ansioso, guiado pelo instinto de pensar o teu rosto o rosto desse poema, teu corpo, seus versos, tua boca, toda a poesia nele contida.

Há um poema. Eu sei.  Vou  escrevê-lo  através da  pontuação do teu fôlego.  
Pode ser que eu  até estremeça ao descompasso da tua respiração,mas escrevê-lo-ei naquele lugar, onde dos teus olhos, eu sinta o aroma das brincadeiras da tua infância.

domingo, 7 de dezembro de 2014


É que os  olhos  rastejam pelas coisas,
Com o espasmo de quem
Toca o limiar da morte...

Esses sóbrios móveis não me explicam...
A frígida cidade não me explica.
Os dicionários não me explicam...


Mas, essa coisa vaga, indefinida

G
R
I
T
A

Na morada indócil e enclausurada
Do que sou.


Já não me  suicido,
Por hoje.



quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Só me continua...

Enquanto você passava arrastando um sorriso de quem sabe o que carrega, fui a moça mais feliz da rua. Tenho preenchido nosso espaço com uma porção de lembranças boas e um tanto de riso fácil, essas coisas que traz você. Porque tudo que nos aproxima tem a garantia elástica e risonha de um encontro na beira da praia, do mar e do sol. 


A lembrança de que teus olhos me procuram é sagrado para mim. E agora pra recomeçar (o que nunca acabou) vou te escrever sempre, essa mania de colocar nossa história num lugar macio e largo, igual ao teu abraço. Ah! O teu abraço... É nele que eu quero chegar e mesmo sem saber onde vai dar, vou continuar ali, na extensão de tudo que é ventilado, rodeada por todas suas cores, por tudo que é bom dentro dele.Teu abraço, moço, é onde tenho caído de um voo despretensioso do meu pensamento.



Com você é sempre como se não houvesse fim. Com você é sempre o que a vida nos reserva de bom, de bem, do ZEN geral de todos e felicidade total do planeta. Com você é sempre amor e amizade. Com você é sempre aquela risada só tua.



Vou ficar aqui te amando dentro de uma casa cheia de madeira com uma garagem florida e janelas de coração no quarto. Vou ficar aqui te amando dentro de uma caixa mágica cheia de baboseiras e coisas felizes desse tempo que também é seu. Vou ficar aqui te amando, dentro. Mas não conta pra ninguém. E agora temos segredos em comum.



Meu coração tá te mandando um beijo


Ps.: tô te amando mais hoje


Do Blog Caixa Mágica.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014




Divago .
Gosto ,
mas devagar...

Insônia.




é nas noites 
em claro
que escureço-me.

Tua.




Meio crua.
Meio nua.
Meio lua.
Inteira sua

Sutura


Muito sangue,
pouca cura.

Via.






Transeunte das vias do Tempo,
Das formas e espaços, Lunar.
Desenhada à medida do próprio 
P o e m a




Riso ,
de derramar.
Se der, mar
amar .

Reverso.






avesso ao meu verso, 
você.
meu carma mais 
perverso .

sábado, 16 de agosto de 2014

Standby

não funciona, amor
Se quer , terá que lidar 
comigo. inteira.
e totalmente carregada.

Medida.



                                       ardor 

                              a       dor       meço


                                      e


 adormeço...

Sintaxe.

.
.
.



Não é mais paciente 
da última oração..
Livre de hiatos inexatos,
conjuga vida,
em primeira pessoa.
.
.
.

Sono.






Achegue-se no meu sonho.
apague a luz, 
acenda o céu quando deitar.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

terça-feira, 15 de julho de 2014

As Flores do Ofício.


Há tempos que não sei o que é a sala de aula. Mas meu serviço às vezes me permite ir até à escola, por outros motivos, é claro.  
Entro, correndo , estressada, nada parece dar certo .  Entro na escola totalmente cega, anulada para o dia.  
E aí, quando menos espero , sou surpreendida um grito que vibrava um " eeeeeeei professoraaaaa ! ! "  Logo em seguida, um abraço , com tanta verdade que perdi o tino.  
Era uma  menina de olhos tão vivos  e cabelo tão cacheadinho. Há três anos atrás , os olhos eram de expectativa e medo  .   Devia ter lá seus 10, 11 anos, primeira vez no " colégio" . Mal sabia ela que a professora,   também estava  perdida dentro de si, aprendendo ainda a ser gente na vida.  Hoje , ela já está crescida .  Hoje, continuo a ver naqueles olhos a mesma doçura de outrora.   Nos meus, só  uma imensa gratidão .  À ela, porque salvou o meu dia .    À vida, porque sou professora.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Insone

Noite enorme, enorme  . Tudo dorme, menos eu.   Tv. Livro. No fim, só café mesmo e teu nome insone madrugada afora..  Teu nome que não some.  Teu nome que ressoa na memória.Lembrança  amargamente doce e tão física.  Cruel.

Na madrugada nada me escapa. Silêncio interrompido pelo ranger de alguns portões, vozes alcoólicas  numa noite em coma. A clareza das coisas me  ensurdecem . Nada é tão real quanto a falta de sono. 

Livros dispersos na cama. Roupas pelo chão do quarto.   E eu,  espectro transparente do que me foge. Eu, vendo a vida de fora  enquanto sou puro fantasma.  Vagueio só por minhas cidades, por minhas ruas tão bifurcadas .

Enquanto o  café  esfria, o passado, visita indesejada, bate à porta, insistindo em reavivar tudo o que dolorosamente já havia deixado para trás..

 Tormenta.Não adormeço . 

É muito implorar por companhia e calma? 
Quero tanto afastar o medo .  
Quero tanto ser feliz que dói.
.
.
.

Amanhece . E minha insônia não resiste à mais um  dia de sol que bate em minha janela.

sábado, 12 de julho de 2014

Voa de tão leve ...







(...)


Eu lhe procuro, como quem procura um pouco de sombra onde se abrigar. E nessa sombra, eu quero aprender a minha filosofia de vida, a ser mais simples, mais humilde, mais natural e mais contente. Quer, pois, você, minha querida, ser a professora de alegria e de contentamento e de paz, para a minha vida? Não queiramos julgar que tudo isso seja sonho e fantasia. Por que há de ser? As coisas melhores que pude construir até hoje foram as minhas amizades. O nosso amor há de ser qualquer coisa de maior e de melhor. Ajude-me, pois a construí-lo. Com o seu auxílio, ele há de ser tão alto, tão sólido, tão humano e tão bom que irá para além do nosso sonho. Adeus. Saudades e saudades e saudades. Escreva-me muito. 


Todo seu
Anísio




TEIXEIRA, Anísio. Carta a Emília Ferreira Teixeira, Bahia, 31 jul. 1930.
Localização do documento: Fundação Getúlio Vargas/CPDOC - Arquivo Anísio Teixeira - ATc 30.06.22.


Leve, poético, Anísio!



(...)

Que pequena confiança, minha querida Emilinha, tenho eu nessa sabedoria. Prefiro a minha, que me diz que seria infinitamente melhor que estivéssemos juntos. E que você pudesse já começar a me ajudar a reconciliar-me com a vida. Custo tanto a andar sozinho. São encontradas aqui, conflitos acolá, erros além, toda uma caminhada incerta, em que a gente não sabe bem para onde vai, nem porque vai... Você com a sua boa alma simples há de me ajudar nessas incertezas. Eu não sei bem tudo que espero de você. Sei apenas que um impulso cego e instintivo me arrasta para você. Sei que por essa inclinação estou disposto a sacrificar o que, há bem pouco tempo, era tudo que eu mais queria no mundo: o meu orgulho, a minha independência, a minha liberdade de viver sozinho. É muito, pois, o que espero de você 

(...)



TEIXEIRA, Anísio. Carta a Emília Ferreira Teixeira, Bahia, 31 jul. 1930.
Localização do documento: Fundação Getúlio Vargas/CPDOC - Arquivo Anísio Teixeira - ATc 30.06.22.


De Anísio



Querida:


De propósito lhe escrevo neste papel transparente e leve. Vou, daqui a pouco, mandá-lo pelos ares para você. Quero-o assim leve, ligeiro para dar-me a impressão de que é um pouco de asa, um pouco de espírito, um pouco de coração que lhe mando nesta tarde, em que estou tão fatigado e o ar, o céu, tudo está tão doce, que a minha saudade parece que se diluiu em uma vaga incerta de tristeza.



TEIXEIRA, Anísio. Carta a Emília Ferreira Teixeira, Bahia, 31 jul. 1930.

Localização do documento: Fundação Getúlio Vargas/CPDOC - Arquivo Anísio Teixeira - ATc 30.06.22.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Das letras -e - bola

"Ora, a sorte! A Copa  do Mundo de 82 acabou para nós,
 mas o mundo não acabou. 
Nem o Brasil, com suas dores e bens. 
E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos."
Drummond








   A literatura  é tecida com os fios da vida.  E o que mais representa a vida do que um jogo de futebol?
Enfrentamentos.   Pancadas.   Coletividade.  Disputa. Rivalidade.  Tempo que urge. Tempo que demora a passar.   Erros e  acertos.   azar . sorte.   Paixão.   
E não é que é imprevisível como  a tal vida? Vida que é também regada à fortes emoções  que  geralmente  fazem o coração apertadinho... Que outras vezes, alargam o sorriso de contentamento e euforia!
Futebol, assim como  a Literatura  ensina -nos a passar pelas intempéries dos dias , nos põe humanos diante do prazer que é ganhar - um jogo, um amor ou nós mesmos.  Ensina também a perder - é o lembrete que firma os pés no chão,  alerta ao ouvido ' olha, você é feito de carne, osso, coração'. perder ensina a sabedoria da humildade, alarga a maturidade  e a imensidão de saber-se abaixo do céu.  Escrevo isso agora e penso   no primeiro por-do-sol que vi em  Salvador -Bahia.   Estava lá, tão pequena, nada de deuses e semideuses, era apenas eu e tanto céu, tanto mar, navios que mais pareciam saltar de uma tela do  Monet sumindo horizonte afora. Eu e a imensidão.

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada."

Não somos nada! Há tanto mundo , tanta estrada, tanta vida.  Tantas perdas e derrotas . Tão minhas quanto  da seleção ou de qualquer outro que acorda , se munindo de coragem para enfrentar o convite do tempo que  voa, cruel.  
Por que elevar o espisódio de ontem à cirscuntâncias dantescas?  

 Ainda bem que  a Literatura com seus fios mágicos  sutura os cortes,  aviva os olhos da menininha de olhos verdes ( a esperança) e reconstrói a confiança de novos sonhos. Horizonte há , que eu sei . E, 
"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".
Não só o sonho de um  título de futebol. Mas de um país melhor - porque potencial para isso, é claro que o meu Brasil tem. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

De mim..

Daquele dia nada soou com tanta verdade. Somente nós em um momento íntimo de encontro .
Eu não pertenço. Alguém pertence, afinal?
Talvez as pessoas estejam absortas demais para se perguntarem. Eu nunca fui de lugar nenhum. Não tenho parte no mundo.Não tenho ídolos. Não me vejo em nenhuma pessoa . Não queria ser ninguém além de mim mesma.Não conheço quem entenda o que eu quero dizer. Não conheço ninguém disposto. Ninguém entende o meu tempo.Ninguém sabe dos meus segredos.Ninguém sabe de mim. Eu não pertenço. É definitivo.


( Do Blog " E agora, Maria? " )

domingo, 29 de junho de 2014

Do dia .

acordo decidida. nunca mais esses olhos cruzarão os teus. me arrasto pelo dia. domingo. café. cães. cadernos. o telefone não toca. eu sei, não vai tocar. aprendi que a mesma loucura que atrai é a que espanta. que a mesma doçura que alivia dá náuseas. e é tudo o que sou: louca e doce. lembro que era pra eu estar agora, do teu lado, rumando o norte. não sofro. tua dureza nos últimos dias quase que me empedra também. então eu choro. porque é tudo tão bonito e tão confuso na minha cabeça. porque tenho essa mania de absorver as dores do mundo e de não entender porque um amor enfraquece. porque acho a coisa mais linda a gente se amar, pouco ou muito, não importa, o amor não é mensurável, você me disse. e também tão doído os rumos que tua distância e minha não lucidez nos leva. não há mocinhos nem vilões. somos apenas pássaros. sem ninho. tentando novos pousos. tentando voar mais alto. me lembro do terminal. da primeira poesia. das ligações matinais. ô glória. das canalhices trocadas. do pouco tempo junto. o amor não é mensurável, você me disse. balanço a cabeça. como sou nostálgica. suspiro forte. como sou dramática. rascunho um verso. como sou intensa. não ligo. mas digo que te amo. não sou de esconder sentimentos. passionalmente escancarada. odeio o silêncio. resolvo escutar chico. fossa proposital. piegas como tu. encantador como tu. acordo decidida. nunca mais vou brigar com o tempo. vou roer as unhas. dar mil voltas no quarteirão. esquecer o celular no banheiro. escrever em todas minhas cadernetas. mas não vou atropelar o tempo. sempre sou eu quem se fere. vou esperar. vou sonhar. vou continuar. vou dançar. e vou dizer sempre sim pra amar. mesmo que enfraqueça. mesmo que enfureça. mesmo que as vezes seja difícil. mesmo que cada um se vire sozinho. mesmo que não se cruzem mais os olhos, as pernas, os braços. mesmo que nos esvazie ou nos transborde. o amor não é mensurável, você me disse.

grazi

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Resiliência:

.  Andar apesar do tropeço.
.   Colar os pedaços estraçalhados do coração.
. Absorver   a decepção  , dar-se  à tapas 
( porque a vida não deixará de bater)

. Coragem para abraçar cicatrizes e dançar sobre as feridas.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Reti( essências)




'Beijo-te levemente na face, não como se fosse um orvalho na madrugada, pois este apesar de leve e delicado é frio. Quero que pense neste meu encostar de lábios, a mornura do hálito de um fogão a lenha da casa de uma pessoa querida, esperando que o café fique pronto...'


Li isso um tempo atrás , tão menina, tão imediata e leiga ante à complexidade da vida. 
Quem me escreveu, o   dono de uma amizade que atravessou-me o caminho.
Mal sabia que seria ele, o personagem que iria ruir as minhas cidades .
 
Apesar de Nossas linhas tão tortas, 

há  tempo ainda para   reescrever nossa história - eu dou a tinta.





...


"(...) Desenhar-te-ei um botão de rosa no umbigo
 uma corola em cada mamilo.
 Só para cheirar, amor. 
Só para cheirar a morte. (...)"


Henrique  Fialho.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Classic a (mente)

Culturas vivem de travessia . Prova disso são as histórias clássicas, que sobreviveram às intempéries e aí estão, ainda a nos encantar - para desgosto daqueles que , tendenciosamente forçam teorias , ineficientes ante às possibilidades da Língua, da História, afirmando, através da mesma violência da hegemonia, o viés de um mesmo discurso : excludente. 

Certo mesmo é que um clássico não existe e nem transcende o tempo por mero acaso. Não é à toa que uma de suas interpretações etimológicas seja justamente 
" classos - grande embarcação para viagens longas . "
Não é à toa que um clássico, " nunca termina o que tem para dizer" .  

E por que diz?  Só lendo para saber...


terça-feira, 27 de maio de 2014




 Chega o dia, que querendo ou não, o coração há que  aportar para que a vida, 
siga solta , atrás de qualquer leveza ou esperança perdida...   E quem sabe, encontrar  ...

Outro alguém .
Outra novidade.
Outro telefone.
Outro café.
Outro abraço.
Outra pele.
Outro sorriso.
Outro cheiro.
Outra música.
Outra noite.
Outra descoberta.
Outra viagem.
Outra  poesia .
Outro  sonho.
Outro colo .
Outro encontro .
Outra saudade.
Outro filme.
Outro jeito.
Outro amor.

Outro. outro. Outro alguém,  sim.
 Virá . Virá . 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Tinha forma de menina; 
Trajava meus olhares 
E meus sossegos particulares.

(Tadeu Francisco)







É na minúcia que amo . às vezes até adoeço.
 Cheio de engenho , o meu amor .
Bota reparo na leveza.
 Ajeita e acolhe o riso
Sempre foi assim.

Na infância, era o circo chegar e eu , tão menina, sentir o coração saltar pela boca, a pulsar alegria.
 Felicidade concreta que deixava o coração 
 apertadinho ..apertadinho ...


Descobri aí , que amor é também felicidade.  


Talvez, fazer rir, seja a melhor forma de amar alguém .


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Preciso manter a ilusão de que tudo pode ser doce. Preciso acreditar que a vida pode ser como a voz de Eliete. E que em alguma esquina, um dia — por que não? — encontrarei um amor bonito esperando por mim.

Quando saio, agora, fico impaciente. Quero voltar pra casa, colocar logo o disco para que o mundo todo se reorganize em do­çura. Gostar de ouvir Eliete é cuidar de um certo jeito de olhar o mundo. Por trás do susto, perdão de olhos molhados, pegar na mão devagarinho e repetir de verdade, do fundo, sem o menor pudor, sem ânsia alguma:

—Gosto de você. Você existir me ajuda a viver.

Depois, acreditar que tudo vai dar certo. E deixar — como ela canta—que o amor dê o que falar.



 Caio Fernando. 

In : http://semamorsoaloucura.blogspot.com.br/

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Vazio



às vezes, a frustração aporta e  a vida parece mais uma embarcação de ansiedades e vontades contidas - transbordando de vazio imenso.    Teimo em pensar que  aqui por dentro não há espaço para o cheio dos nadas. Que há gente linda conhecida no decurso dos anos -essas,  pairam nos meus sonhos.  Que o sorriso do sobrinho é qualquer coisa de nuvem e de Deus na Terra.  Que tenho  a desenhar as viagens que ainda não fiz . Que aprendi a amar  com a beleza  i n t e n sa e dolorosa  que convém às almas.   
 Todavia, a memória -mais teimosa do que EU -  mal -educada, torna a bradar que a saudade  é mais abusada do que se sabe.  
Que distâncias forçadas  , maltratam, e o tempo , 
nem sempre  sutura as cicratizes causadas pela " faca  só lâmina " 
que é o amor .  
 Sei que há um mundo a girar,   cheio de coisas e estrelas.   Que as estações continuam, intocáveis.  Que a esperança ainda caminha  com leveza. Que o caminho é convite pro que vier. Que há outros portos e sensações, um céu inteirinho para pincelar novos sonhos   enquanto cá estou, a  permitir que o vazio faça potinhos cheios de mim.   
 Fácil é saber.    Difícil mesmo é não abraçar as lembranças, irreversíveis , que circundam a  memoria e o arrepio da pele. 

domingo, 6 de abril de 2014

Entre o Riso e o Significado.





 Vem da infância o fascínio pelo Clown, adornado com um pouco de medo, é claro. O Circo sempre  aparece como mágica na vida de uma criança.  E vem do palhaço, o encanto que circula dentre todo o universo de cores e exagero. 

Segundo o Fellini,  um "clown encarna os traços da criatura fantástica, que exprime o lado irracional do homem, a parte do instinto, o rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós.
É uma caricatura do homem como animal e criança, como enganado e enganador.  É um espelho em que o homem se reflete de maneira grotesca, deformada, e vê a sua imagem torpe.  É a sombra."

Sombra essa que tendemos a esconder por não encaixar  numa sociedade cheia de padrões, com gavetinhas que não  cabem o disforme , o escuro  e o mais humano dos adjetivos : o imperfeito.

Mas o  Clown aí está, a lembrar-nos que no homem residem o irracional, o  instintivo . A tirar-nos do automático,  do caos cotidiano que tudo banaliza, a mostrar-nos a beleza da criança que dança por entre feixes de luz  em nossas almas. A eterna criança...

É nesse mundo em que tudo grita, e o barulho ocupa o espaço da paz, que um vídeo conduz-me ao extraordinário  universo do silêncio.  " Parece que o coração carece e diz : Para! Silencia..."   

 Assim, o silêncio é retratado: de forma suave, delicadamente o mais poético possível.  Silêncio entre um riso e outro,  a esclarecer o significado das coisas,  a dar significado as coisas, a recordar-nos que imenso é Ser.




Do clown, a mágica de revelar -nos que a vida é simples. A despertar em nós, a humanidade há muito adormecida ....



"Nunca as pessoas se cansam destas coisas absurdas, pois há milénios que os seres humanos se enganam no caminho, há milénios que todas as suas buscas e interrogações desaguam num beco sem saída.
O mestre da inépcia tem como domínio o tempo inteiro. Só se dá por vencido perante a eternidade."

[ Henry Miller-O sorriso aos pés da escada. ]

quarta-feira, 26 de março de 2014

Do Abismo.

Pensa-se que profundos são os  precipícios que aí estão a enfeitar a natureza.


 Muito mais fundos são os abismos, de  Dentro.

 Entranháveis em nós.   

terça-feira, 11 de março de 2014




"Descobri que servia era pra aquilo: 
Ter orgasmo com as palavras."


Manoel de Barros.


quinta-feira, 6 de março de 2014

Da Sensualidade.






Em tempos de engessamento  da beleza em molduras de cosméticos milagrosos e corpos petrificados, deparo-me com uma sentença maravilhosa da Viviane Mosé :

Ser gostosa não é ser magra e ter bunda dura e seios grandes, ser gostosa é ser sensual.
E ser sensual é querer comer e ser comida pela vida.Que é o que me caracteriza.

"Comer a vida ".. as palavras sobrevoaram meu pensamento durante toda a manhã ...
Tenho comido a vida ou consumido o discurso mercadológico facínora que me entala a garganta com coisas plastificadas e sem dignidade?

Discurso esse que   força no meu corpo amarras de um padrão de beleza surreal, branca, magra,  enquanto propagam na telinha o elixir da felicidade  - disponível a cada postagem, a cada nova exibição do espetáculo do " eu".   Também encontrada nos potinhos portadores do milagre anti-idade. 

A vida sob a regra do discurso consumista é mágica.  Felicidade escancarada.  O instagram acabou com o acolhimento da intimidade familiar, com o cheirinho da comida que só sua mãe fazia e que só você sentia...

Férias?  Passam diante dos olhos enquanto você faz check-in e   posa para mais uma foto.

Sei que o homem é um sujeito de seu tempo. Sei também que não estou ilesa e que até compartilho tais atitudes em alguns momentos.   Mas, por alívio e sorte, não creio na salvação pelo consumo .      

E já por loucura , creio numa salvação transbordada de amor e beleza.   Não a beleza vendida nas capas de revistas , mas a beleza colorida pela verdade da existência , adornada  de ternura  pelo tom do olho-no-olho,  pela luz de um sorriso e pelas gotinhas de um " bom-dia" .      

É preciso Ser-Verdade  ( Carne  e osso, sangue na veia e tudo) para testemunhar o que há de belo na comunhão de um abraço.   É preciso ter verdade para contemplar  os milagres cotidianos da vida - aqueles que o Manoel de Barros vive bordando com fios de infância em seus poemas. 

É  preciso ainda  ter essência para" comer a vida e por ela , ser comida."   Estou a tentar. Enquanto isso, Viviane Mosé me representa.



sábado, 1 de março de 2014

bota fora





saia blusa
saia calcinha 
saia camiseta
saia sutiã
saia saia

saiam todos
que eu preciso
da gaveta oca
para guardar
papeizinhos

*líria porto