quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Calor.






Calor. Respire.
Incômodo cansaço - do dia, da vida.

Deite-se.

O livro.

O gato à janela procura a  noturna brisa.

Na sala, alguém  rastreia canais na tv.  

É  primavera

Mas a noite morna , morna 
dá naúsea  e não flor. 


Nos teus ouvidos, Johnny Cash.


A noite  segue quente. 

Embora  esse céu escuro e esse frio no coração lhe afirmem  
o contrário.

O gato à janela.

 O livro.


Deite-se. 


Respire.

Adormeça.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Crise

  




É, os tempos não estão mesmo fáceis para o sonhadores...

São mesmo dias truculentos, em que contos de fadas- repletos de cuidado estético, literário, lúdico-  são censurados por , supostamente, agredirem à infância com suas histórias carregadas de "violência"  e letras de músicas ( se é que assim, posso chamar), paupérrimas, linguisticamente falando :  dá sintaxe à semântica, elevam-se como objetos de denúncia às opressões, como mecanismos de conscientização política, social, história, de gênero, etc etc etc.

Estar a pensar nisso causa-me " cansaços"  dignos de Álvaro de Campos...  E só me resta acordar com um outro poeta, um menino que muito sabia..." Coisa que não acaba no mundo é gente besta e pau seco" ( manoel de Barros).

Não à toa, o mundo anda às avessas...




quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Intervalo (amor) oso








O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?

Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?

Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?

Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?

O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?

É como se entre um dia e outro
houvesse o vago-dia, cinza,
vida igual a morte, amortecida.

O poema, avulso gesto de amor,
é vão recobrimento de espaços.
O poema é dúbia forma de enlace,
substitui o pênis
pelo lápis
- e é lapso.

Affonso Romano de Sant'anna.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Da maternidade





Filme : O Olmo e a Gaivota - Petra Costa


 Confesso que a ideia da maternidade me assombra. às vezes penso ter propensão natural à ela e a possibilidade de não -realização disso já me põe paranoica. Mas , fato é, que o terror perpassa todos os ângulos:  a estranheza , a vulnerabilidade, a imagem romancizada da gravidez.  Quero ser mãe.  às vezes minha natureza grita por isso. Porém, incomoda-me a divulgação da maternidade como o fator supremo de realização da feminilidade,  como "dádiva" .  Afinal, não ser mãe não faz de mim menos mulher.




" Há muitos lugares-comuns acerca da maternidade; a maior parte deles, por inércia ou simples cobardia, vai-se sedimentando até se tornar verdade absoluta. Nenhum desses equívocos é, por assim dizer, tão falso e absurdo como a imediata emergência do amor filial. É certo que muitas mulheres, com propensão para o drama, choram de emoção mal vislumbram o ser que lhes escorre das entranhas. Ainda os meninos, olhos inchados das conjuntivites neonatais, sonham com o aconchego nacarado do ventre materno, e já essas mulheres lhes chamam meu docinho, meu amorzinho, meu queridinho, amor da minha vida, como se, em vez de um filho, estivessem a chamar por um amante. Essas mulheres, apesar do ridículo a que se sujeitam, sossegam por cumprir o papel de mães dedicadas que lhes compete. A liberdade escapa-lhes, a lucidez também. Porque não se ama quem não se conhece. Um filho acabado de nascer, tal como o sentiu Maria, é um desconhecido. Ainda que uma excrescência solta do seu corpo, não deixa de ser um estranho que de repente invade a vida de uma mulher. Uma mãe precisa de tempo para se acostumar a um filho, mais tempo ainda para o amar. Muitas mulheres levam vários anos até finalmente sentirem amor a um filho. Outras nunca chegam a senti-lo. "

Ana Cássia Rebelo