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Calor.

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Calor. Respire.
Incômodo cansaço - do dia, da vida.

Deite-se.

O livro.

O gato à janela procura a  noturna brisa.

Na sala, alguém  rastreia canais na tv.  

É  primavera

Mas a noite morna , morna 
dá naúsea  e não flor. 


Nos teus ouvidos, Johnny Cash.


A noite  segue quente. 

Embora  esse céu escuro e esse frio no coração lhe afirmem  
o contrário.

O gato à janela.

 O livro.


Deite-se. 

Respire.

Adormeça.

Crise

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É, os tempos não estão mesmo fáceis para o sonhadores...

São mesmo dias truculentos, em que contos de fadas- repletos de cuidado estético, literário, lúdico-  são censurados por , supostamente, agredirem à infância com suas histórias carregadas de "violência"  e letras de músicas ( se é que assim, posso chamar), paupérrimas, linguisticamente falando :  dá sintaxe à semântica, elevam-se como objetos de denúncia às opressões, como mecanismos de conscientização política, social, história, de gênero, etc etc etc.
Estar a pensar nisso causa-me " cansaços"  dignos de Álvaro de Campos...  E só me resta acordar com um outro poeta, um menino que muito sabia..." Coisa que não acaba no mundo é gente besta e pau seco" ( manoel de Barros).
Não à toa, o mundo anda às avessas...



Intervalo (amor) oso

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O que fazer entre um orgasmo e outro, quando se abre um intervalo sem teu corpo?
Onde estou, quando não estou no teu gozo incluído? Sou todo exílio?
Que imperfeita forma de ser é essa quando de ti sou apartado?
Que neutra forma toco quando não toco teus seios, coxas e não recolho o sopro da vida de tua boca?
O que fazer entre um poema e outro olhando a cama, a folha fria?
É como se entre um dia e outro houvesse o vago-dia, cinza, vida igual a morte, amortecida.
O poema, avulso gesto de amor, é vão recobrimento de espaços. O poema é dúbia forma de enlace, substitui o pênis pelo lápis - e é lapso.

Affonso Romano de Sant'anna.

Da maternidade

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Confesso que a ideia da maternidade me assombra. às vezes penso ter propensão natural à ela e a possibilidade de não -realização disso já me põe paranoica. Mas , fato é, que o terror perpassa todos os ângulos:  a estranheza , a vulnerabilidade, a imagem romancizada da gravidez.  Quero ser mãe.  às vezes minha natureza grita por isso. Porém, incomoda-me a divulgação da maternidade como o fator supremo de realização da feminilidade,  como "dádiva" .  Afinal, não ser mãe não faz de mim menos mulher.



" Há muitos lugares-comuns acerca da maternidade; a maior parte deles, por inércia ou simples cobardia, vai-se sedimentando até se tornar verdade absoluta. Nenhum desses equívocos é, por assim dizer, tão falso e absurdo como a imediata emergência do amor filial. É certo que muitas mulheres, com propensão para o drama, choram de emoção mal vislumbram o ser que lhes escorre das entranhas. Ainda os meninos, olhos inchados das conjuntivites neonatais, sonham com o aconchego nacarado…