segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz Ano Novo!









Mais e mais ainda  poesia. Mais abraços, menos beijos insípidos , mornos . Mais livros lidos,mais leituras apaixonantes sem a profundidade superficial das frases feitas e dos lugares-comuns. Mais arrepios, menos medo e mais entrega. Mais surpresa, menos conformismo, inércia. Mais cama, com lençóis limpos e um cheiro inesquecível no travesseiro .

É tempo de lavar-se do ontem, despir-se para o amanhã. Aceitar o que ele trará. Ele. Tirar os cabelos do rosto, sentir o vento, esticar os braços, tentar alcançar a nuvem, ficar na ponta dos pés. Dançar sem vergonha. Conversar com as paredes, abrir as cortinas, vestir os olhos com a paisagem da janela. 

Menos eu, mais nós. Menos dor, mais superação. Menos lágrimas, mais sorriso. Menos vaidade. Mais verdade. Mais doçura. Mais delicadeza. Mais paz. Mais , mais alma. Mais , Mais. Mais. Mais  amor até o fim e depois..

Feliz Ano Novo! 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Dia de Manoel . Dia de Poesia.










"Eu acho que buscar a beleza nas palavras 
é uma solenidade de amor." 



As coisas nítidas confortam, e as coisas ao sol confortam. Ver passar a vida sob um dia azul compensa-me de muito. Esqueço indefinidamente, esqueço mais do que podia lembrar. O meu coração translúcido e aéreo penetra-se da suficiência das coisas, e olhar basta-me carinhosamente. Nunca eu fui outra coisa que uma visão incorpórea, despida de toda a alma salvo um vago ar que passou e que via.

Bernardo Soares

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Dia da Bruxa ^^



'Ao teu recomeço faço votos de prosperidade – aquela prosperidade que preenche e aquece – que nos oferece continuidade neste ciclo infinito.Que o Senhor continue sendo sua Luz e apontando o seu caminho.
 A este reinicio confio em teu dedo mágico: faça dos gestos prumo para teus horizontes mesmo que ainda lhe pareçam distantes – este dia nos pareceu longínquo certa vez, mas eis que estamos presentes nele!
 Presenteio-te nos termos de tua profissão: em organização e planejamento, para posicionar toda a massa de documentos a proporções mensuráveis. Fica como troféu de formada, graduada, proprietária de especialidades que são só tuas.
Parabéns, amiga. Agradeço-te pelas aventuras do passado e surpresas do por vir. Meu abraço é saudosista e valoroso por nós

Sê feliz. Muito feliz, Bruxa!



PS: Texto retirado de Via do Lar.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

'Põe fogo-artifício sobre lençóis'



'Vibra a alma em sol sustenido com sétima. Não traça caminhos, só ascende às estrelas. E espera. O ano rebenta o tempo para deixar sua marca. E ela demarca em seus braços um tempo que não há de passar. Jamais.'

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

'Eternize '





Fervo, te ter por perto é um arrepio,
tremo se percebo um desvio na tua segurança,
desejo que se perca e se ache no que acredito,
tão impossível vir comigo assim?
errado ou certo quem dirá será o tempo,
o momento pede somente o decidir
entre ir e ficar, o caminho está a frente,
basta saber o que você quer eternizar.

Cáh Morandi

sábado, 10 de novembro de 2012

O Beijo - Parte I






Capitu, queria então te contar um segredo.

Antes da hora, e com um pouco de medo

É coisa surreal que só eu sei.


Aconteceu fora da sua lei

Mas aconteceu.

Com tintas fortes uma imagem brutal

Um beijo

Aconteceu eu juro.Antes do carnaval

Na tua boca macia

E eu fiquei ali paralisado.

Com as mais diversas emoções

Emocionado

E isso não foi tudo.

olha que louca, tua boca

macia

também me queria.




Da Intrigante estória de Bentinho e Capitu revisitada.
L Cypher

sábado, 3 de novembro de 2012

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS







Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.


Manoel de Barros.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012




E sem ser vista
Rasgo
Alguns véus e fibras

Sem ser amada
Pertenço.

Que sobreviva
O fino traço de tua presença.
Aroma. Altura.
E lacerada eu mesma

Que jamais se perceba
Umas gotas de sangue na gravura.


H. Hilst

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Das óbvias conclusões.







" A única maneira de liquidar o dragão é cortar-lhe a cabeça, aparar-lhe as unhas não serve de nada."

(José Saramago)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sentir é Buscar.






Tudo é encontrar qualquer coisa. Mesmo perder é achar o estado de ter essa coisa perdida. Nada se perde; só se encontra qualquer coisa. Há no fundo deste poço, como na fábula, a Verdade.

Sentir é buscar.”

.Fernando Pessoa

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Caçada que não é de Pedrinho.





Barthes nos diz que a língua é fascista.  Estamos presos às amarras lingüísticas e a todas as ideologias que por elas circulam, já que a língua é por excelência, o veículo das ideologias. Não somos livres! Mas o próprio Barthes nos ensina o caminho da liberdade: ‘trapacear’ com a língua - artifício que só conseguimos através da Literatura.  Ao falar de nós e pra nós, nos fazendo passear por caminhos devolutos, experiências e dramas tão  comuns à essência humana, a literatura aproxima o abismo existente entre a vida e o homem. Vida essa que ‘não nos basta’, mas que a literatura preenche, na medida em que saltamos para dentro da história usando o ‘pó de pirlimpimpim’ e nos apropriamos das personagens, de seus medos, anseios, esperanças, alegrias.   Tenho sorte na vida... A minha infância foi uma floresta encantada e infinita. Por ela passaram lobos-maus, caçadores, sacis, iaras, príncipes, princesas! Sofri e senti medo da bruxa com o João e a Maria.  Aprendi com a Branca de Neve e os Sete Anões que com verdadeiros amigos é possível vencer as piores maldições- E  mais tarde ,  aprendi com O Pequeno Príncipe o valor de cada respiração , de cada amigo. Chorei agradecida.  Viajei com Gulliver... As histórias de Verne cultivaram em mim o gosto da liberdade. Descobri também que quando se quer voar, é preciso se arriscar a ficar tonta. E mesmo assim o vôo sempre valerá à pena. Já o amor ao vôo e aos passarinhos quem me ensinou foi o Manoel de Barros.  Foi o Manoel que também despertou a criança adormecida em mim. Manoel transformou-se no meu passaporte pra infância. Cresci e estudei com o Harry Potter em Hogwarts. Vi de perto as batalhas de Carlos Magno e seus pares de França. Conheci Lampião e seu bando nas trilhas do Cordel. E em cada linha, reconheci a voz de minha avó, seus causos e exemplos.
Infelizmente nenhuma Sherazade me acalentou o sono com suas histórias fantásticas antes de dormir... Em compensação, tive um gênio e um tapete mágico de companhia por todo o caminho. Quando o Ali Babá disse o ‘abre-te sésamo’, eu estava lá.
Pedrinho me mostrou a força que há na coragem. Emília que a gramática pode ser divertida e também ensinou a não me contentar com o dado e o pronto. E o Visconde, ah! O Visconde ensinou-me a amar a sabedoria.
Ao lado da Florbela Espanca vivi os amar-gos de minha adolescência... Foi nessa mesma época que aprendi a conversar com Machado de Assis, Bentinho, Capitu, Brás Cubas...  Fui à cartomante e descobri com o Alienista, que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. Foi também na adolescência que comecei a odiar o José de Alencar. 
Com Hamlet sofri as tensões, a crueldade da dúvida, a ânsia da vingança... Foi Hamlet que me contou que a melhor saída é tomar boas doses de coragem e lutar contra o mar de angústias que tantas vezes nos aflige em vez de abaixar a cabeça e sofrer as ferozes flechadas do destino.  Numa de nossas conversas, percebi que não devo me assustar com o mundo..pois ele é por vezes sem graça, sem alma ..inútil!
Lamentei a morte e o amor de Romeu e Julieta... No entanto, suspirei com uma das mais lindas declarações do universo..tanto que guardo até hoje alguns versos na memória e no coração..‘Ah, então, minha santa criatura, permita que os lábios façam o que as mãos fazem; tens de concordar comigo, em que elas se unem em prece, para que a fé não se transforme em desespero’ [p.43].
Com Otelo descobri como o ciúme corrói o mais nobre dos sentimentos... E a Bíblia acresceu-me a fé na vida, na nobreza do amor, em Deus e em mim. Ah! Tantas histórias assaltam-me a memória enquanto escrevo estas linhas!
Tantos romances conseguiram chegar com profundidade em minha alma e mostrar-me, a face hedionda e sórdida do ser humano, as sinuosidades da vida - E a vida, vivida pelas páginas de um bom livro, apesar de todo o mau-agouro, desgosto, ainda nos diz, baixinho ao pé do ouvido: ‘— Sonhe-me, vale a pena. Sonhe-me, que vai gostar. ’
Muitos outros personagens ainda convivem comigo. Ficam guardadinhos na caixinha mágica da memória, sempre dispostos a aconselhar-me e a ajudar-me quando me falta a palavra ou a coragem do gesto para expressar o que sinto.
Eles entraram por uma porta que nunca mais se fechará: a porta do Sítio do Pica-pau Amarelo.  Desde o primeiro dia que abri um livro do Monteiro Lobato, nunca mais saí dele.  Mal sabia o Lobato que ao abrir-me as portas do sítio, abria-me as portas do universo.  
Cresci com Narizinho e Pedrinho.  Morei no sítio, passei pelo reino das águas-claras.  O sítio ainda hoje respira compassivo nas minhas memórias de infância.  Em nenhuma dessas memórias há lembranças racistas, preconceituosas. Pelo contrário, há apenas a nostalgia do gosto pela aventura, pelas histórias, pela palavra. 
Hoje leio mais uma vez a notícia de censura contra a obra de Monteiro Lobato e inevitavelmente pergunto-me: É Lobato o preconceituoso ou é a nossa sociedade hipócrita, que joga o problema para debaixo do tapete e finge que não existe racismo nesse país?    Ele escreveu apenas um discurso racista ou há outras dimensões em sua obra? Como limitar a leitura de uma obra literária?  Como subestimar a imaginação de uma criança? Quem é capaz de adentrar no imaginário de uma criança?  
É lamentável ver a violência contra a liberdade, a estupidez em tentar engessar o discurso literário e a tentativa de escamotear um problema de ordem histórica, política e social. Sim, o racismo sustenta as bases históricas de nossa sociedade e é o crime mais perfeito que cometemos.  Não é censurando e promovendo uma ‘ caça as bruxas’ às obras do Monteiro Lobato que resolveremos a situação. 
Ademais, duvido muito que uma criança teça um olhar tão limitado a uma obra literária. Porque estúpidos são os adultos, não elas.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Das Frases Feitas.






(...) Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais difícil operação das aritméticas humanas;
Dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos;
Dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar emanharados, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos, e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.

(José Saramago)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

NÃO.


Não! Não vou me afligir por aquilo que não depende de mim..
Amizades gratuitas , que assaltam-nos sem pedir licença com cuidado e, despertam a delicadeza da alma devem ser celebradas. Não só pela raridade que possuem, mas para que a maldade alheia nunca prevaleça.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012



Por quantas impossíveis geografias
Ainda permaneceremos exilados na fronteira do equívoco
Mesmo nos sabendo vizinhos de terras devolutas?

. Ezio Déda.

Liberto.

O percurso mais íngreme 
E contra a direção das torrentes
É livrar-se de si .

Ezio Deda.






quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Dos dias que me amanhecem assim...





"Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara." 

Eduardo Galeano

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

AMOR.





“Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.”

 - Maiakóvski


sábado, 25 de agosto de 2012

Espana-a- dor.





tinha aprendido que era muito importante criar desobjectos.
certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar o cinzento. não munido de nenhum artefacto alegre, inventei um espanador de tristezas.
era de difícil manejo – mas funcionava.

Ondjaki

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Livr-e-o




O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria”.

. Jorge Luís Borges in Ensaio: O Livro .

domingo, 19 de agosto de 2012

E se..






Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria de meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia
E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo
Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga
E amavio contente o amor teria sido .

 Hilda Hilst

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Por vezes, indócil.



Estou à primavera das sensações indóceis. Florações extremas e, no entanto, mudas, só eloquentes de silêncio e olhar.
Discretamente solitária, aguardo pela ventania inconfidente da alma, a fim de que ela cante minhas proezas, revele  minhas histórias, as sonhadas e as vividas. Minha quietude  é de bosques que trazem a urgência dos verdes, revivendo a cada estação, o definitivo da vida. Cresço inesperadamente  nessa temporada,  feita de noites arrastadas, consumida no ópio de palavras silenciadas pelo medo de morrer de amor. A estrada desses mornos dias é longa demais, a rotina é uma reta que desejo bifurcar porque sonho com curvas de mulher.Sonham as curvas comedidas em mim. Mesmo calando sussurros, palavras, frases inteiras, orquestro-me, alcanço as estrelas dos meus delírios, agigantada por dores e agonias, por  ilusões , sóis temporais, secretamente difundida  nas minhas entranhas, nas dimensões multiplicadas dos meus eus. Minha natureza sabe que, a despeito de quaisquer rios que eu navegue, desembocarei sempre em versos livres; e assim será até que as flores perfumem alegrias e tragédias.




Roberta Tostes.

sábado, 28 de julho de 2012

Gratuidade das Aves e dos Lírios



'Sempre que a gratuidade ousa em minhas palavras, 
elas são abençoadas por pássaros e por lírios.

Os pássaros conduzem o homem para o azul, 
para as águas, para as árvores e para o amor.

Ser escolhido por um pássaro para ser a árvore dele: 
eis o orgulho de uma árvore.

Ser ferido de silêncio pelo vôo dos pássaros: 
eis o esplendor do silêncio.

Ser escolhido pelas garças para ser o rio delas: 
eis a vaidade dos rios.

Por outro lado, o orgulho dos brejos é o de serem escolhidos 
por lírios que lhes entregarão a inocência.

(Sei entrementes que a ciência faz cópia de ovelhas, que a ciência produz seres em vidros -louvo a ciência por seus benefícios à humanidade, mas não concordo que a ciência não se aplique em produzir encantamentos.)

Por quê não medir, por exemplo, a extensão do exílio das cigarras?

Por quê não medir a relação de amor que os pássaros tem com as brisas da manhã?

Por quê não medir a amorosa penetração das chuvas no dentro da terra?

Eu queria aprofundar o que não sei, como fazem os cientistas, mas só na área dos encantamentos.

Queria que um ferrolho fechasse o meu silêncio, 
para eu sentir melhor as coisas incriadas.

Queria poder ouvir as conchas quando elas se desprendem da existência.

Queria descobrir por quê os pássaros escolhem a amplidão para viver 
enquanto os homens escolhem ficar encerrados em suas paredes.

Sou leso em tratar com máquina; mas inventei, para meu gasto, 
um Aferidor de Encantamentos.

Queria medir os encantos que existem nas coisas sem importância.

Eu descobri que o sol, o mar, as árvores e os arrebóis são mais enriquecidos pelos pássaros do que pelos homens.

Eu descobri, com o meu Aferidor de Encantamentos, que as violetas e as rosas e as acácias são mais filiadas dos pássaros do que os cientistas.

Porque eu entendo, desde a minha pobre percepção, que o vencedor, no fim das contas, é aquele que atinge o inútil dos pássaros e dos lírios do campo.

Ah, que estas palavras gratuitas possam agora servir de abrigo para todos os pássaros do mundo!'

Manoel De Barros

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Amizade : para lembrar de celebrar muito mais.





A Amizade é um dos amores mais lindos. 

A melhor casa, melhor cara, arma e poesia.
O nosso acordar mais bonito.


Priscila Rôde.

sábado, 14 de julho de 2012

Dispa-me..Dispa-me..



A noite/1


Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras.Se pudesse, diria  a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada na minha garganta.


A noite/2


- Arranque-me, senhora, a roupa e as dúvidas. Dispa-me, dispa-me.




A noite/3


Eu adormeço as margens de uma mulher: eu adormeço as margens de um abismo.




A noite/4


Solto-me do abraço, saio as ruas. No céu, já clareando, desenha-se, finita, a lua. A lua tem duas noites de idade. Eu, uma.




Eduardo Galeano  In O Livro dos Abraços 


Frêmito do meu corpo a procurar-te.
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,
Olhos buscando os teu por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,

Que nada existe que a mitigue e a farte!
E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...
E o meu coração que tu não sentes,

Vai boando ao acaso das correntes,

Esquife negro sobre um mar de chamas...

Florbela Espanca



domingo, 8 de julho de 2012



...ensinem-me a maneira de dar leis ao coração!"

(Florbela Espanca)

Memória.


A memória guardará o que valer a pena.

A memória sabe de mim mais que eu;
e ela não perde o que merece ser salvo.


(Eduardo Galeano)

sábado, 7 de julho de 2012

Desses amores..


"Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

Guimarães Rosa

domingo, 24 de junho de 2012





Tenho sua filosofia no que tange viver a antítese dos conceitos "estereotipados" pela humanidade... parecer ter tudo e sentir não ter nada, ou parecer não ter nada, tendo tudo!! Digo "parecer", pois possuir pra mim é inerente à idéia própria e não à matéria ou status... Estar em meio a uma multidão e devorado pelo vazio da solidão... falar sem mesmo dizer: isso não me refiro a observar  gestos e olhares, mas ler o sentimento pela ausência de palavras...isso é um dom bonito...parafraseando a semântica, é como enxergar o interior de um amigo pela imagem do silêncio. Escutar sem ouvir ,ora é dádiva, ora ignorância...a harmonia vem da medida da conveniência...mas em qualquer caso exemplifica mais uma vez que "ser" por uma declaração exterior é o mínimo ante o que proclama o interior: a inteligência pertence muitas vezes ao desprovido de ciência... os verdadeiros príncipes carregam em si o semblante da humildade que lhes credita o título, e são ricos na pobreza! Sobre tudo eu poderia escrever que de fato "é" não significa "ser", pois não adianta ter uma coroa e um cetro de ouro sem ter o sentimento de reinar...


Maurício Júnior

sábado, 23 de junho de 2012

Tr-ama




"Um monte de pó formou-se no fundo da prateleira, por detrás da fila de livros. Os meu olhos não o vêem. É uma teia de aranha ao meu tacto.
É uma parte ínfima da trama a que chamamos história universal ou processo cósmico. É parte da trama que abarca estrelas, agonias, migrações, navegações, luas, pirilampos, vigílias, naipes, bigornas, Cartago e Shakespeare.
Também são parte da trama esta página, que acaba por não ser um poema, e o sonho que sonhaste ao alvorecer e que já esqueceste.
Há um fim na trama? Schopenhauer julgava-a tão insensata como as caras ou os leões que vemos na configuração de uma nuvem. Há um fim da trama? Esse fim não pode ser ético, já que a ética é uma ilusão dos homens, não das inescrutáveis divindades.
Talvez o monte de pó não seja menos útil para a trama do que as naus que carregam um império ou que o perfume do dado."


-"Os Conjurados" - Jorge Luís Borges

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos..



A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.

O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.

O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.

Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.

Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.


Do livro do Desassossego .

quinta-feira, 21 de junho de 2012


"Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer."

(Hilda Hilst)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Jogo da Amarelinha...





Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.







Júlio Cortázar 
Tradução Fernando de Castro Ferro.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Saudade(ando)...





Tua saudade 

Que fosse metade minha

Que me encontrasse

Como as horas encontram o dia ...



[T.M.]











domingo, 17 de junho de 2012

Maria Callas a Aristóteles Onassis...


"Alinhavar as células uma a uma
até termos um lençol de uivos
caído sobre o ar. Por amor, entregar
a voz, o corpo e a alma. Por amor,
desmaiar sobre o palco com a
depressão a escorrer-nos dos poros.

Tecer a pele e de súbito dizer:
dobra bem nas pontas a fome -
para que se ouça por dentro do gelo
a chama desabrigada dos dedos.
Por amor, entregar a voz, o corpo
e a alma. Desafinar até ao silêncio.

Tactear coma ponta dos calos
as rugas do tempo e no fim suspirar
de alívio. Afinal foi só desmaio.
Estamos vivos e insaciáveis como
as sombras quando adormecem
no colo do sangue. Por amor,
entregar a voz. Por amor entregar."

-"Dança das Feridas" - Henrique Bento Fialho