terça-feira, 29 de outubro de 2013

Esperança.


"[…] pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas.”



Raduan Nassar, em “Lavoura arcaica”.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

'Havia um fim entre nós'




Antes de qualquer coisa não pense que isso é um mérito seu, não te esquecer foi minha escolha. Honro minhas lembranças, não desprezo o tempo que dediquei para alguém, não ignoro os poemas que li, não esqueço os sonhos que tive. Na verdade, não tem nada a ver com você, tem a ver com nós. Eu e você separados somos planos diferentes.

(...) Não irei jogar pela janela os minutos que construí olhando para você, nem vou apagar tua voz abafada debaixo das cobertas das madrugadas, não (...) vou tentar acabar com o espaço que sobrou na sua ausência.

Quando penso em você quase nada abala. Dói mais quando penso em nós. E quando penso em nós ainda te amo, por isso não vou trocar teu nome seguido de amor no telefone, pois ainda me incomoda a possibilidade de que encontre alguém melhor, porque ainda me desconcerta a ideia que você possa se abrir para outra pessoa.(...)

A felicidade brilha, resplandece no vocabulário. Tem lugar garantido no dicionário, nos sonhos, nos projetos de vida. Sempre pensamos na felicidade como um dia, e não no dia em que nos encontramos e a paixão nos dilacerou. A gente esquece do valor das coisas. Mas eu não vou te esquecer, uma conquista deve ser guardada, pode ser uma pessoa inteira, pode ser um minuto em que os olhos se cruzaram. Cada um sabe o que é valioso para si.

O que conquistei de você me pertence.

Cáh Morandi

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Vinicius....



Ouve como o silêncio 
Se fez de repente 
Para o nosso amor 

Horizontalmente... 

Crê apenas no amor 
   E em mais nada 
Cala; escuta o silêncio 
   Que nos fala 
Mais intimamente; ouve 
   Sossegada 
O amor que despetala 
   O silêncio... 

Deixa as palavras à poesia...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Do dia.

E às vezes, a gente nem precisa de muito pra ser feliz:

Chuva. 
Livro bom.
Café quentinho.
Abraço da tia.
Sorriso do sobrinho.
Um ipê ( amarelo) na janela.

sábado, 5 de outubro de 2013

Irreversível .



 Certa vez me perguntaram se gostaria de tatuar algo no meu corpo. 
Eu respondi: “De irreversível em mim já bastam minhas lembranças.





— Augusto Barros 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Da memória.





Não há memória mais terrível do que a pele..
A cabeça pensa que esquece..
O coração sente que passou..
Mas a pele arde, invulnerável ao tempo...

(Inês Pedrosa)

Indiferente.




Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar…
Por isso o meu verso tem essa quase imperceptível tremor...
A vida é triste, o mundo é louco!
Nem vale a pena matar-se por isso.
Nem por ninguém.
Por nenhum amor…
A vida continua, indiferente!


-Mario Quintana - (In: A Cor do Invisível p. 882 [2] )

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Indócil.

Porque acordei indócil e nem lamento mais o fato de alguém fazer da própria vida um circo de traumas e querer que os outros façam parte do espetáculo de horror, mentira e mesquinhez que inventou para justificar a fraqueza de não saber amar de verdade,  para justificar a própria falta de maturidade e escamotear o alvoroço de sentir-se emocionalmente instável.   

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

De Capitu ...




"Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros… Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. A boca podia ser o cálix, os lábios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende e é a língua católica dos homens. Não me tenhas por sacrilégio, leitora minha devota a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. Estávamos ali com o céu em nossas mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham…"







Machado de Assis

Olhos nos olhos....


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Da amizade.



Tenho me assustado com a maldade e também muito com a bondade excessiva. Não compreendo pessoas que forçam as coisas, as situações para se mostrarem agradáveis, prestativas. 
Assusto-me mais ainda com aquelas pessoas que tratam o outro como mercadoria. Amigo é objeto de posse. Cerceada a liberdade, o amigo não pode mostrar sintonia de afinidades com outra pessoa. Certamente ele foi roubado de forma fria e calculista por outrem. Certamente, ele também não tem vontades, não sente e não pensa. É gente ou robô? 

Amigos escolho não pela idade, mas pela singularidade de alma. E por eles sou escolhida. É questão de encontro, de estar dentro. De ser verdade antes e sempre. E de perceber o outro com sangue na veia e tudo – não apenas como refúgio para descanso dos meus dilemas e fraquezas.

Quem diz o contrário, muito está por fora.  e Dificilmente segura 'um olhar que demora'.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Da Alma.








Esquisito o que vou dizer: a alma é uma biblioteca.


Nela se encontram as estórias que amamos.
Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, O paciente inglês, As pontes de Madison, Amor nos tempos do cólera, A menina e o pássaro encantado. As estórias que amamos revelam a forma do nosso desejo.


Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Aos Apaixonados”

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Só sei ...

Ele queria explicar a nossa história.


Eu também queria entender.

Tanto tempo,   tantos encontros e ainda não descobrimos as razões.

Por que gosto dele?

Talvez por causa da calma bonita bordada em sua  voz,  por suas falas, que sintonizam tanto com as minhas (...) Talvez a causa esteja nos efeitos líricos que me assaltam todas as vezes que o vejo e na poesia que nos anuncia, sempre-e-tanto?

Não sei.

Quem sabe seja por causa daquela delicadeza que  exala quando  fixo nele o meu olhar,  e percebo um quê de abando em seus olhos e ainda,  aquela fragilidade escondida que só eu vejo..

 Talvez ame os  medos que ele nem sabe, mas sente.

Estar com ele é sempre como atravessar-me. É andar por Sevilha. É estar no  Pont des Arts .

Quem sabe  eu goste dele por alguma coisa muito mais simples.

Talvez porque meu acolhimento  alcança e abraça sua melancolia.

Talvez porque abraçando, sinto abraçada a solidão que é só minha.

Não sei.

Não. .. Desconfio que também não seja por sua inteligência,  pela gentileza presente em cada gesto , tampouco por suas mãos que sempre desenham  flores docemente  em minha pele.

Só o que sei é que não escolhi gostar dele.

Gostar dele é que me escolheu.

Sei também que a singular e impiedosa intensidade que há entre nós dispensa toda e qualquer explicação.


Definitivamente.

domingo, 8 de setembro de 2013

Quero.



Quero o primeiro bom-dia.  E poesia compartilhada como presente. Quero ir às compras todo fim de mês.E as suas  palavras mais acertadas para a minha coragem. Quero um abraço teu em meio à chuva.  Quero ainda aprender a cozinhar. Dividir o sofá e ver o jogo do SPFC , quero levar o cachorro que nem tenho para passear, quero mãos dadas, quero ver um filme , quero nem ver o tal filme. Quero ler . Que o livro também nos seja uma forma de comunhão. Quero a doce certeza de que ao estender as mãos encontrarei as tuas, quero telefonemas inesperados, recadinhos na geladeira e sms que anunciem cuidado. Nada de  flores, apenas um ipê-roxo na nossa janela. Quero estender a toalha da mesa enquanto você põe os pratos, quero um vinho tinto, quero você a tocar violão, quero contar da minha infância, quero ouvir sobre o seu dia, quero entrelaçar os dedos, quero velar o teu sono, aparar em teu corpo a nossa eternidade até a próxima manhã. e a próxima. e a próxima... sem cessar.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

" Amor começa tarde"




'O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado do que quem vive feliz. Não se pode ceder, Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.'

sábado, 31 de agosto de 2013

"Calar é fina forma de amar"



De todos os sentimentos humanos talvez seja o amor aquele que mais se adorne delicadamente. 



Amor tende a botar reparo e engenho em nós. Necessita de limites precisos e só acontece de verdade, quando é naquela perfeita dose. Meio-copo, Dose insuficiente. Amor não é. Em dose demasiada, deixou de ser.

Amor transforma qualquer normalidade em desequilíbrio. Tira-nos do eixo, dá nos insônia, faz-nos avesso, incomoda em excesso e ainda assim, sabemos que é esse o lugar certo para se estar.

Vez ou outra, o amor caminha pelas ruas dos contrários dentro da gente e exige um espaço ainda-e-sempre vazio,  para que o outro seja refúgio quando necessário for.

Porque amor , na dose certa, conhece os lugares exatos onde nossas estruturas trincam, onde nosso céu desaba e faz tudo ruir . 

Há ainda , muito amor na contradição.
Ela adoça nosso copo com umas pitadinhas de verdade, mostra quem amamos despido, na crua forma de sua natureza humana.
Então, do outro, descortina-se os defeitos, os espaços de desencontros, as falhas ... Ama-se melhor na contradição, porque o outro nem sempre quer ser entendido - amor desconsidera sabatinas e sermões.

Talvez a dose certa do amor esteja mesmo na aceitação...
No olhar que namora o silêncio em vez da correção, no abraço que acolhe o coração daquele que verdadeiramente te ama, mas que algumas vezes se perderá entre os desacordos da própria existência. 

Em se tratando de amor, ouvir é requinte.
Já disse o Affonso Romano de Sant'Anna:

Calar, às vezes,
é fina forma de
AMAR.

Amar é tênue. E desfazer o silêncio do outro  derrama toda a dose.
Amor  tem mais verdade quando mora no cuidado.   
 Te quero bem. Te cuido também!

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Let me rain ...



De tempos em tempos, a fragilidade inunda e a gente deságua violentamente.
 Nesses dias a alma parece querer fugir, ir acontecer em outro canto.  

 Só que alma não sai para fazer visitas, apenas tenta. Cada tentativa de fuga a engasga e acaba por nos deixar às sós  com a nossa solidão. 
É exatamente nessas horas que a vontade de quem amamos começa a cortar a carne como navalha. Vontades ardem ... 

Há um suplício absoluto e íntimo nesses dias.  Gritamos surdamente pedindo um  colo , um abraço que abrande o caos absurdo de nossas ruas , clamamos para que alguém seja o  silêncio capaz de calar o alvoroço que invade nossos ouvidos.  

Em meio à tantas surdas vontades,  a inundação continua  e amordaça nossa  alegria. 
Nesse afogamento, quem aparece para o milagre da comunhão? Quem estende o braço que nos aporta de forma segura e não nos deixa arrastar pela  correnteza afora?

A ausência de quem amamos nos momentos mais precisos torna o tempo mais imprevisível, aumenta a tempestade, impulsiona as enchentes, dá truculência ao mar.  E se o mar está revolto, choremos sua imensidão. Até porque o amor é uma coisa e a vida é outra...

 A vida sempre terá seus tormentos, independente da gente ter ou não um amor , um alguém de braços estendidos e coração  à espera  para acolher nossa  implacável solidão. 
Afeto distante é lâmina , é  ausência que estraçalha.

Já não imploremos pelo o outro ...

 Saibamos chover. Às vezes o céu desaba  e é preciso força para que a beleza da verdade em nós não escorra numa  enchente e termine  num bueiro qualquer, por mais que doa a falta de um cuidado, por mais que nos doemos por  nos doar constantemente  ao outro. 

Nem toda a alma possui a leveza do reconhecimento. Deixemos-nos chover com verdade. Esperança em dias tão-úmidos também é milagre.  E a verdade nos recomeçará milagrosamente. Eu creio.

Liberdade.







'Um amigo meu, já morto, dizia que gostava mais de gatos do que de cães porque não há gatos-polícia. Eu gosto de cães, mas julgo que os gatos seduzem os poetas porque os gatos – como a poesia, que é liberdade-livre – são seres livres.
A sua domesticidade é aparente, a suficiente para poderem assegurar-se a liberdade. Pode ensinar-se tudo a um gato, menos a não ser um gato. Já viu algum gato deixar-se humilhar a fazer exercícios de circo?'


Manuel António Pina

domingo, 25 de agosto de 2013

Na Ribalta.




Há um quê de nostalgia nos olhos do palhaço enquanto percorre todas as idades. 
Em que lugar do sonho perdeu seu nariz?


Há uma inquietude na alma da bailarina.  
Seus passos, tropeço. 
O Caminho, só lâmina para aquela que andava sempre nas pontinhas dos pés.   
Roubaram-lhe as sapatilhas.

 Se não há nariz, o riso do palhaço é navalha. 
Bailarina descalça corta o pezinho.  
Já não brincavam.  Ele, condoía-se por não mais saber fazer rir. Ela, soube pela primeira vez como é  delicado e cruel ter os pés no chão.  Sangravam.

  Sangue no picadeiro. 

(...)

Gotinhas vermelhas? Seria elas algum indício de seu nariz?  
Ruborizou as bochechas, o tom era esperança.   
Seguiu  tortos passos. Passos  ou o coração? 

Encontro.

Das mãos dela,  recebeu sua última gargalhada.  Tão harmonioso foi o riso que  a gravidade parou a ouvi-lo. 
  Abraçou novamente a alegria. Abraçou a moça.
 Pediu-lhe sua última dança

Tão leve a moça, em sua suavidade... Bailarinas eram feitas de nuvem? .
Perderam-se em rodopios.  

(...)
O picadeiro já não existia. Os rostos da plateia  eram notas dissonantes...
Já não dançavam  conforme a música...  Nos acordes do sonho, Flutuavam . Porque  enquanto ela  sorria , ele seguia seus passos.




sexta-feira, 23 de agosto de 2013

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Da travessia.

Silêncio corrompido é tremor,  febre na tênue cortina da pele. O silêncio nos subtrai, pouco a pouco, aponta a fronteira do indizível. Suspende a respiração. Aumenta a sede.  Avança sobre nossas  fotografias  nunca antes reveladas, faz a memória de carrocel . Desconsidera  o tempo que há além-nós. Impiedoso, costura na carne o exato momento. É luz nas horas. De súbito, a vontade se amorna, e se vê  cores no medo, medo nos olhos . Pela imprecisão dos ponteiros somos envolvidos.A brisa assoprada ao pé do ouvido... A brisa espalhando todo tipo de  vento, toda a fome. Fome anterior e perpétua, oblíqua das horas e das repetições todas.  Arrepio. Nossas esquinas. Becos e vielas. O contraste projetado na pele, fere.. Infinitas trilhas. tantos caminhos e nenhum. Tantos caminhos e um só. Água esvaindo, invadindo nossas superfícies e poros. Estradas abertas. O dentro e o fora e o não-mais. Apalpamos o silêncio com nossos olhos . Fixamos o abraço. As tréguas? de lado. O Fôlego? submerso na imensidão das bocas. A mesa ? estática. O livro ? esquecido. Sobre nós, desatados os nós. Incansáveis e inalcançáveis encruzilhadas.Atravessamos, hesitantes e de uma vez por todas. Atravessamos o  mar que é o medo do mar, lágrima e sal.  amor  num átimo, e de uma só vez . Sede voraz. Boca  que seca. E ainda assim, atravessamos. O fogo e a coragem do fogo. Depois, nem medo ou coragem.  Vida amortecendo a morte. Teu nome impróprio rasurando minha pele. Escreve em linhas tortas.  Febre. Suspiro. Chove imprecisão, precisão. Gemido. É doce a chuva que violenta as vontades. Mistério último, alhures do tempo. Turbilhão de esperas. Travessia? Intempéries. Atravessemos o mar revolto. Atravessemos-nos enquanto incessantemente somos atravessados. Enquanto a sorte não nos separa.
                                                                                                                            

À Lá Cléo*



Ser sensível nesse mundo requer muita coragem.Muita. Todo dia. Esse jeito de ouvir além dos olhos, de ver além dos ouvidos, de sentir a textura do sentimento alheio tão clara no próprio coração e tantas vezes até doer ou sorrir junto com toda sinceridade.
Essa sensação , de vez em quando , de ser estrangeiro  e não saber falar o idioma local, de ser meio ET, uma espécie de sobrevivente de uma civilização extinta. Essa intensidade toda em tempo de ternura minguada. Esse amor tão vívido  em terra em que a maioria parece se assustar mais com o afeto do que com a indelicadeza.Esse cuidado espontâneo com os outros.

Essa vontade tão pura de que ninguém sofra por nada. Esse melindre de ferir por saber, com nitidez, como dói se sentir ferido.

Ser sensível nesse mundo requer muita coragem. Muita. Todo dia. Essa saudade , que às vezes faz a alma marejar , de um lugar que não se sabe onde é, mas que existe, claro que existe. Essa possibilidade de se experimentar a dor, quando a dor chega, com a mesma verdade com que se experimenta a alegria. Essa incapacidade de não se admirar com o encanto grandioso que também mora na sutileza. Essa vontade de espalhar buquês de sorrisos por aí , porque os sensíveis, por mais que chorem de vez em quando, não deixam adormecer a ideia de um mundo que possa acordar sorrindo. Pra toda a gente. Pra todo o ser. Pra toda a vida.

Eu até já tentei ser diferente, por medo de me doer, mas não tem jeito : só consigo ser igual a mim.

[Ana Jácomo]


*Porque na pessoa de Cléo, essas palavras tomam vida.*

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Du-vi-do !






Tenho visto ideias muito interessantes que adaptam  sob o jugo da tecnologia e da animação gráfica,  ' obras de arte ' para a sala de aula com vistas à realidade dos alunos  de hoje,  o que sem dúvida, é um prato cheio para dinamizar qualquer aula maçante sobre a história da literatura,  da arte - tão correntes nas nossas escolas :Ensinam tudo, menos a apreciação estética,  a consciência  encantadora  diante de um objeto artístico.

 Porém,  essa história de adaptar toda e qualquer linguagem artística aos leitores do novo tempo não interfere na fruição primária,  na magia e no estranhamento que acontece quando  há o contato direto  com um objeto de arte , sem intermédios de  novas e tecnológicas linguagens ?  A contemplação de uma obra-de-arte hoje, não deveria nos tirar do caos contínuo em que nos encontramos e nos lembrar que nosso tempo  está se esvaindo, assim como tudo que transformamos em exibicionismo  mercadológico e fast food?


 Não sei, uma coisa é amarrar o cadarço do tênis de uma criança, outra é deixar que ela tropece, se depare com o embaraço das cordinhas e aprenda a enlaçá-las por si.  


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Capitu [2]


Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de um na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia;mas nem esta razão a moveu.

- Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios,eu desci os meus , e (...)


[Machado de Assis]

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

25 Coisas sobre Mim.

1. Ainda assisto desenho animado.

2. Minha coleção de canecas falhou. Assim como a coleção de cartões telefônicos, tampinhas, tazos (só para quem nasceu nos anos 90), conchas, selos, adesivos, bolinhas de gude, canetas, cds, revistas.

3. Há quem diga que eu sou chata.Deixo a dúvida no ar.

4. Todos os meus animais de estimação morreram ou sumiram .

5. Sou viciada em séries adolescentes.

6. Tive um amigo imaginário chamado Marcelo.
7. Adoro poesia.

8. Se você é o tipo de pessoa que manda convites para jogos no Facebook, desculpe, mas nunca poderemos ser melhores amigos.

9. Das vontades que nunca irei realizar por falta de coragem estão: pintar o cabelo de vermelho-fogo; fazer uma tatuagem; comer alcachofra.
10. Das vontades que ainda sonho em realizar : Viajar por Sevilha; andar de montanha-russa ; ter filho; ter um jardim de orquídeas; ter uma biblioteca e uma cadeira de balanço;
11. Quebrei a cabeça de um guri com uma pedrada aos 10 anos .

12. Tive a cabeça quebrada por uma pedrada aos 12 anos.

13. Estou inclinada a acreditar que o amor é apenas uma química hormonal em prol da continuidade do ser humano.

14. Já quis pegar o Saci com uma peneira e uma garrafa com rolha.

15. Queria ser inteligente como o Visconde de Sabugosa.
16. Não sei cozinhar.

17. Amo café. Odeio Miojo.

18. Não sei conversar sem tocar o outro. Adoro cafuné.

19. Sou mais solitária do que o recomendado e menos do que eu gostaria.
20. Meu sonho de infância era fugir com um circo.
21. Evito velórios e não sei lidar com isso. Me distancio da morte porque ela é um abismo fascinante.
22. Tenho medo de altura e de lugares fechados.
23. Sou péssima em matemática.
24. Fernando Pessoa é o meu poeta no mundo. João Cabral também.
25. Não sei conter o choro. Mas também não contenho o riso, o afeto.

Capitu.



— É pecado sonhar?
 — Não, Capitu. Nunca foi.
 — Então por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?
 — Divindade não destrói sonhos, Capitu. Somos nós que ficamos esperando, ao invés de fazer acontecer.

                                                                                            (Machado de Assis)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Elegia ao primeiro amigo..


Rio de Janeiro

Seguramente não sou eu
Ou antes: não é o ser que eu sou, sem finalidade e sem história.
É antes uma vontade indizível de te falar docemente
De te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura
Neste momento de solidão e desmesurado perigo em que me encontro.
Talvez seja o menino que um dia escreveu um soneto para o dia de teus anos
E te confessava um terrível pudor de amar, e que chorava às escondidas
Porque via em muitos dúvidas sobre uma inteligência que ele estimava genial.
Seguramente não é a minha forma.
A forma que uma tarde, na montanha, entrevi, e que me fez tão tristemente temer minha própria poesia.
É apenas um prenúncio do mistério
Um suspiro da morte íntima, ainda não desencantada...
Vim para ser lembrado
Para ser tocado de emoção, para chorar
Vim para ouvir o mar contigo
Como no tempo em que o sonho da mulher nos alucinava, e nós
Encontrávamos força para sorrir à luz fantástica da manhã.
Nossos olhos enegreciam lentamente de dor
Nossos corpos duros e insensíveis
Caminhavam léguas - e éramos o mesmo afeto
Para aquele que, entre nós, ferido de beleza
Aquele de rosto de pedra
De mãos assassinas e corpo hermético de mártir
Nos criava e nos destruía à sombra convulsa do mar.
Pouco importa que tenha passado, e agora
Eu te possa ver subindo e descendo os frios vales
Ou nunca mais irei, eu
Que muita vez neles me perdi para afrontar o medo da treva...
Trazes ao teu braço a companheira dolorosa
A quem te deste como quem se dá ao abismo, e para quem cantas o teu desespero Como um grande pássaro sem ar.
Tão bem te conheço, meu irmão; no entanto
Quem és, amigo, tu que inventaste a angústia
E abrigaste em ti todo o patético?
Não sei o que tenho de te falar assim: sei
Que te amo de uma poderosa ternura que nada pede nem dá
Imediata e silenciosa; sei que poderias morrer
E eu nada diria de grave; decerto
Foi a primavera temporã que desceu sobre o meu quarto de mendigo
Com seu azul de outono, seu cheiro de rosas e de velhos livros...
Pensar-te agora na velha estrada me dá tanta saudade de mim mesmo
Me renova tanta coisa, me traz à lembrança tanto instante vivido:
Tudo isso que vais hoje revelar à tua amiga, e que nós descobrimos numa incomparável aventura
Que é como se me voltasse aos olhos a inocência com que um dia dormi nos braços de uma mulher que queria me matar.
Evidentemente (e eu tenho pudor de dizê-lo)
Quero um bem enorme a vocês dois, acho vocês formidáveis
Fosse tudo para dar em desastre no fim, o que não vejo possível
(Vá lá por conta da necessária gentileza...)
No entanto, delicadamente, me desprenderei da vossa companhia, deixar-me-ei ficar para trás, para trás...
Existo também; de algum lugar
Uma mulher me vê viver; de noite, às vezes
Escuto vozes ermas
Que me chamam para o silêncio.
Sofro
O horror dos espaços
O pânico do infinito
O tédio das beatitudes.
Sinto
Refazerem-se em mim mãos que decepei de meus braços
Que viveram sexos nauseabundos, seios em putrefação.
Ah, meu irmão, muito sofro! de algum lugar, na sombra
Uma mulher me vê viver... - perdi o meio da vida
E o equilíbrio da luz; sou como um pântano ao luar.

Falarei baixo
Para não perturbar tua amiga adormecida
Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
Tudo me merece um olhar. Trago
Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
Um constante beijo para beijar; meus olhos
Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera.
Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento
Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água
Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível
Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
Mas com singular delicadeza. Não sou bom
Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
Como um lobo. Se não fosse delicado
Já não seria mais. Ninguém me injuria
Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
A liberdade alheia; não existe
Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza
Sou um mártir da delicadeza; sou
Um monstro de delicadeza.

Seguramente não sou eu:
É a tarde, talvez, assim parada
Me impedindo de pensar. Ah, meu amigo
Quisera poder dizer-te tudo; no entanto
Preciso desprender-me de toda lembrança; de algum lugar
Uma mulher me vê viver, que me chama; devo
Segui-Ia, porque tal é o meu destino. Seguirei
Todas as mulheres em meu caminho, de tal forma
Que ela seja, em sua rota, uma dispersão de pegadas
Para o alto, e não me reste de tudo, ao fim
Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber
Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe
Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa 
De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida

Vinicius de Moraes.


sábado, 10 de agosto de 2013




                                    Pai, 


o que sei é que gostaria de ter dado muitos outros passos contigo.
Principalmente os de agora...




sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada
e tiritam, azuis, os astros à distância”.
O vento desta noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis e por vezes ela também me quis.
Em noites como esta apertei-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela me quis e às vezes eu também a queria.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos?
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela.
E cai o verso na alma como o orvalho no trigo.
Que importa se não pôde o meu amor guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. À distância alguém canta. À distância.
Minha alma se exaspera por havê-la perdido.
Para tê-la mais perto meu olhar a procura.
Meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores.
Já não somos os mesmos que antes tínhamos sido.
Já não a quero, é certo, porém quanto a queria!
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos.
Já não a quero, é certo, porém talvez a queira.
Ah, é tão curto o amor, tão demorado o olvido.
Porque em noites como esta a apertei nos meus braços
minha alma se exaspera por havê-la perdido.
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
e estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

[Neruda]





Essa nossa sintonia tem 

cheiro de telepatia, 
será isto magia? 
Não sei! Mas arrepia... 


[Vinicius de Moraes]

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Da não-vontade



A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.


                                             (Álvaro de Campos)

domingo, 4 de agosto de 2013

Cansaço meio - amei-o .




A despeito do que poderia os desavisados pensarem,
amor e cansaço não são incompatíveis.
As pessoas cansam de amar, cansam mesmo.
Quando amar é uma luta inglória,
é uma sede saciada a conta-gotas.
.
[Honoré de Balzac]

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Da Poesia (hoje)





A poesia moderna assume sua condição de transitoriedade e registra sua recusa à linguagem utilitarista, faz surgir a novidade da diferença num tempo que urge, já atravessado pelas utopias frustradas. Faz ecoar a voz silenciada de sujeitos perdidos em meio ao caos contemporâneo que eles mesmos criaram. Ler poesia nos tempos do agora é reconhecer-se perdido, incomodado diante do processo de desumanização para o qual estamos caminhando.

domingo, 28 de julho de 2013

Do Clássico.



O cânone  vem sofrendo constantemente o desprezo da academia e,  quando isso não ocorre, é tratado como coisa secundária, servindo de pretexto para qualquer outra leitura, menos a literária. Recupera-se a voz da minoria, silenciada ao longo história tentando calar a voz de um discurso dissoluto, que nunca teve dono nem senhor. 

Certo é  que um clássico não existe  e nem transcende o tempo por mero acaso. Lembro-me dos 'contos de fadas'...De tantas  histórias que  ultrapassaram culturas  e correram os séculos  e , ainda hoje são reproduzidas, reinventadas , adaptadas . Por que será? O quê tem de especial nelas?   

(...)


─ Como um livro deveria ajudar?
─ Acha que as histórias servem pra que? Essas histórias… Os Clássicos? Têm uma razão para nós os conhecermos. São uma maneira para lidarmos com o nosso mundo, um mundo que nem sempre faz sentido. 

[Branca de Neve in série ' Once Upon a Time']

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Da contra-ilusão





Quando antagonizamos demais alguns discursos, levando o ' contraponto' ao ápice do radicalismo, acabamos por transformá-lo tendenciosamente no viés , não no reverso. É como se fosse a mesma coisa, mas ao contrário, como num jogo de reflexos de espelho.   

Cá, estou, a observar os racismos sutis, o preconceito ao  avesso, o machismo velado,  espelhados nos discursos daqueles que - na ilusão de defender uma causa ( digna e necessária, obviamente), se perdem nas suas ineficiências diante das possibilidades da Linguagem, tão refratária quanto um espelho ao sol.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Da Falta



Sinto falta de encontrar você no meio do caminho, de abrir um sorriso e ver o nosso abraço parar o tempo. De escutar você dizer meu nome.. De como observou que eu mexo a boca de um jeito quando penso na palavra certa para te dizer. Mas não digo, porque entre nós a ausência de palavras, nada mais é, do que respiração intensa..
 De como eu me sentia em casa  (e como não me sinto hoje em lugar algum).  Do jeito que seu cabelo tem uma faixa luminosa sob a luz...
Da cama aquecida . .. dos seus pés, de suas pernas, dos seus olhos , das suas mãos... Do futuro imaginado numa casinha no meio do nada , com jardim , lareira e café sempre fresquinho, onde receberíamos os amigos quando fôssemos velhos, onde contaríamos histórias aos nossos filhos e netos.  De pensar em coisas pra agradá-la, de sentir tua ansiedade e desassossego gritando no silêncio. De contemplar tua inteligência , provar tua timidez diante do meu olhar . 


Mas  há  a saudade, de cada gesto, de cada poesia trocada e tocada em nós. De cada sono teu .
Mas  há a saudade.  E essa pesa bem mais que o desgosto de saber meu destino separado do teu.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Te encontro [em todas as ruas] te perco



Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco





CESARINY, Mário. Pena capital. Lisboa: Assírio & Alvim, 1957.

domingo, 28 de abril de 2013

50 Receitas...






O que me dá raiva
São as flôres
E os dias de sol
São os seus beijos
E o que eu tinha
Sonhado prá nós...

[Leoni]

terça-feira, 23 de abril de 2013

No dia Internacional do Livro : BC Para comemorar !!


Muito me entusiasmei com a proposta de BC feita pela Aleska, afinal, trata-se de uma das coisas que mais amo nessa vida : Leitura. Porém, confesso que ao sentar agora para escrever esse texto , percebi o quão difícil será escrever sobre o meu autor preferido ! Simplesmente porque eles são vários – ... E o meu amor , de fases.. rs rs . 

Bem, a leitura faz parte de minha vida desde que me entendo por gente. Dom Quixote e eu fomos ótimos companheiros de viagens pelas linhas mágicas da Literatura. E a literatura oral construiu os primeiros degraus dessa escadinha sem fim que é a leitura. Parando agora para pensar, desde criança eu já tinha certa predileção para a poesia. E não é à toa que os meus autores favoritos são todos poetas. 

Quando adolescente, fuçando a biblioteca da escola, encontrei um livrinho da Florbela Espanca. Gostei do nome da autora e só por isso, peguei o livro pra ler. E não é que aquela menina encontrou na Florbela tudo aquilo que estava sentindo? Sim, a adolescência beira aos extremismos, e adolescente que fui sofreu bastante com um amor platônico, que lhe parecia impossível. 

É tão bom quando nos encontramos numa leitura , quando paramos  por um momento e pensamos : “Nossa, eu deveria ter escrito isso!” “ Isso foi escrito para mim” . Por um bom tempo, a Florbela escrevia para mim. E até hoje guardo na memória uma estrofe do poema ‘ Os versos que te fiz’, que tempos atrás, me dizia tanto ..tanto : 


Amo-te tanto! E nunca te beijei... 

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei 

Guardo os versos mais lindos que te fiz! 



A fase lírico-dramática passou . (UFA!) e caí nos braços de um senhor admirável, o Machado de Assis. Viajei pelas páginas de Dom Casmurro e fiquei perdidamente apaixonada. A famosa descrição dos olhos de Capitu é uma das partes do livro que mais me encantou , tanto, que fui atrás dos outros livros do autor . Gostei demasiadamente de Memórias Póstumas.Na época , esquecia até de comer e dormir para ficar lendo (...)


“Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me (...)”.

Machado de Assis , para mim, é espetacular. Minha referência no romance brasileiro. E Lobato,  o autor da minha infância e é sem dúvidas, um dos melhores autores que temos. 


Já na  faculdade , tive a honra de ter encontrado um amigo mais do que um professor – O Roger. E se eu estava submersa nesse país das maravilhas que é a leitura, ele conseguiu me afundar ainda mais. 


Foi através das aulas do Rogério que conheci a Literatura Hispano-americana. Encontrei-me com o Gabriel Garcia Marquez e fiquei extasiada.  O Julio Córtazar, tem qualquer coisa de lindo . Mas a melhor coisa que o Rogério já fez por mim nessa vida foi ter me apresentado ao Manoel de Barros. Desde então, ele figura ao lado dos meus mais queridinhos e amados: Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto. 

O meu encantamento pelo Manoel reside no poder que sua poesia tem de me fazer visitar novamente a infância, de adornar a vida de uma simplicidade tamanha, capaz de me fazer sentir o olhar de Deus. 

E o “apanhador de desperdícios” tem me alimentado diariamente com sua poesia. 

O João é um caso de amor antigo e meio truncado . Nos conhecemos no ensino médio e o livro didático fez questão de trata-lo como romancista e não como poeta. Resultado : fiquei intrigada com a escrita dele e achando que Morte e Vida Severina seria mais um romance chato , que provavelmente cairia no vestibular. 

A chateação por não ter entendido patavina [sempre quis usar essa expressão] foi tanta que decidi ir atrás do livro para ver de fato o que esse tal João Cabral estava falando. Afinal, quem ele pensava que era? Escrevia para não ser entendido? Onde já se viu ? 
Fui atrás e tive um choque : Ele era um poeta. Mas um poeta tão diferente ... que continuei lendo –o ,mas sem entende-lo. 

A minha compreensão sobre a obra do João Cabral só se deu , de fato, quando comecei a cursar letras, a estudar literatura, poética , linguagem..

 E hoje , depois de descortinado o universo da poesia cabralina, já não há volta ! Minha paixão por ele é declarada. A admiração então... é tanta que ele se tornou o objeto de pesquisa para o meu trabalho monográfico. 

 Foi essa admiração que fez com que a minha colega Mônica, também se apaixonasse e embarcasse nessa louca , hermética , mas incrível viagem que é a poética do João . Ah, não posso esquecer de mencionar que foi através da poesia dele que conheci um dos meus melhores amigos , e tenho certeza que toda essa identificação com o João é a coisa que mais nos aproxima e edifica nossa amizade . ^^

 ah! ah!...Em se tratando do João , fico aqui suspirando e querendo que ele tivesse escrito o poema Paisagem pelo Telefone especialmente para mim ... “a água clara não te acende: libera a luz que já tinhas”  [ Leiam, leiam- é Lindo! rs ]
Mas se há nesse mundo um poeta para mim, ele é o Fernando Pessoa. Nem vou me demorar muito a falar dele , primeiro porque penso ser impossível mensurar o quanto ele é bom, segundo porque seria muita tietagem. 

Encontro na poesia do Fernando , as pessoas de mim. É o poeta que mais conseguiu se aproximar daquilo que eu sinto, do modo como vejo e contemplo a vida . Tenho a impressão que ele me conhece mais do que eu mesma.

Enfim,  Devo ser um Álvaro de Campos tentando ser e ter a sabedoria do Alberto Caeiro... Quem sabe um dia, eles se encontrem definitivamente! 










PS1 -  Não falei no texto, mas amo também o Leminski rs rs

PS2-  Obrigada Aleska por compartilha conosco  essa ideia tão legal ^^

PS3 - Feliz dia Internacional do Livro, gente!