quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Caçada que não é de Pedrinho.





Barthes nos diz que a língua é fascista.  Estamos presos às amarras lingüísticas e a todas as ideologias que por elas circulam, já que a língua é por excelência, o veículo das ideologias. Não somos livres! Mas o próprio Barthes nos ensina o caminho da liberdade: ‘trapacear’ com a língua - artifício que só conseguimos através da Literatura.  Ao falar de nós e pra nós, nos fazendo passear por caminhos devolutos, experiências e dramas tão  comuns à essência humana, a literatura aproxima o abismo existente entre a vida e o homem. Vida essa que ‘não nos basta’, mas que a literatura preenche, na medida em que saltamos para dentro da história usando o ‘pó de pirlimpimpim’ e nos apropriamos das personagens, de seus medos, anseios, esperanças, alegrias.   Tenho sorte na vida... A minha infância foi uma floresta encantada e infinita. Por ela passaram lobos-maus, caçadores, sacis, iaras, príncipes, princesas! Sofri e senti medo da bruxa com o João e a Maria.  Aprendi com a Branca de Neve e os Sete Anões que com verdadeiros amigos é possível vencer as piores maldições- E  mais tarde ,  aprendi com O Pequeno Príncipe o valor de cada respiração , de cada amigo. Chorei agradecida.  Viajei com Gulliver... As histórias de Verne cultivaram em mim o gosto da liberdade. Descobri também que quando se quer voar, é preciso se arriscar a ficar tonta. E mesmo assim o vôo sempre valerá à pena. Já o amor ao vôo e aos passarinhos quem me ensinou foi o Manoel de Barros.  Foi o Manoel que também despertou a criança adormecida em mim. Manoel transformou-se no meu passaporte pra infância. Cresci e estudei com o Harry Potter em Hogwarts. Vi de perto as batalhas de Carlos Magno e seus pares de França. Conheci Lampião e seu bando nas trilhas do Cordel. E em cada linha, reconheci a voz de minha avó, seus causos e exemplos.
Infelizmente nenhuma Sherazade me acalentou o sono com suas histórias fantásticas antes de dormir... Em compensação, tive um gênio e um tapete mágico de companhia por todo o caminho. Quando o Ali Babá disse o ‘abre-te sésamo’, eu estava lá.
Pedrinho me mostrou a força que há na coragem. Emília que a gramática pode ser divertida e também ensinou a não me contentar com o dado e o pronto. E o Visconde, ah! O Visconde ensinou-me a amar a sabedoria.
Ao lado da Florbela Espanca vivi os amar-gos de minha adolescência... Foi nessa mesma época que aprendi a conversar com Machado de Assis, Bentinho, Capitu, Brás Cubas...  Fui à cartomante e descobri com o Alienista, que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. Foi também na adolescência que comecei a odiar o José de Alencar. 
Com Hamlet sofri as tensões, a crueldade da dúvida, a ânsia da vingança... Foi Hamlet que me contou que a melhor saída é tomar boas doses de coragem e lutar contra o mar de angústias que tantas vezes nos aflige em vez de abaixar a cabeça e sofrer as ferozes flechadas do destino.  Numa de nossas conversas, percebi que não devo me assustar com o mundo..pois ele é por vezes sem graça, sem alma ..inútil!
Lamentei a morte e o amor de Romeu e Julieta... No entanto, suspirei com uma das mais lindas declarações do universo..tanto que guardo até hoje alguns versos na memória e no coração..‘Ah, então, minha santa criatura, permita que os lábios façam o que as mãos fazem; tens de concordar comigo, em que elas se unem em prece, para que a fé não se transforme em desespero’ [p.43].
Com Otelo descobri como o ciúme corrói o mais nobre dos sentimentos... E a Bíblia acresceu-me a fé na vida, na nobreza do amor, em Deus e em mim. Ah! Tantas histórias assaltam-me a memória enquanto escrevo estas linhas!
Tantos romances conseguiram chegar com profundidade em minha alma e mostrar-me, a face hedionda e sórdida do ser humano, as sinuosidades da vida - E a vida, vivida pelas páginas de um bom livro, apesar de todo o mau-agouro, desgosto, ainda nos diz, baixinho ao pé do ouvido: ‘— Sonhe-me, vale a pena. Sonhe-me, que vai gostar. ’
Muitos outros personagens ainda convivem comigo. Ficam guardadinhos na caixinha mágica da memória, sempre dispostos a aconselhar-me e a ajudar-me quando me falta a palavra ou a coragem do gesto para expressar o que sinto.
Eles entraram por uma porta que nunca mais se fechará: a porta do Sítio do Pica-pau Amarelo.  Desde o primeiro dia que abri um livro do Monteiro Lobato, nunca mais saí dele.  Mal sabia o Lobato que ao abrir-me as portas do sítio, abria-me as portas do universo.  
Cresci com Narizinho e Pedrinho.  Morei no sítio, passei pelo reino das águas-claras.  O sítio ainda hoje respira compassivo nas minhas memórias de infância.  Em nenhuma dessas memórias há lembranças racistas, preconceituosas. Pelo contrário, há apenas a nostalgia do gosto pela aventura, pelas histórias, pela palavra. 
Hoje leio mais uma vez a notícia de censura contra a obra de Monteiro Lobato e inevitavelmente pergunto-me: É Lobato o preconceituoso ou é a nossa sociedade hipócrita, que joga o problema para debaixo do tapete e finge que não existe racismo nesse país?    Ele escreveu apenas um discurso racista ou há outras dimensões em sua obra? Como limitar a leitura de uma obra literária?  Como subestimar a imaginação de uma criança? Quem é capaz de adentrar no imaginário de uma criança?  
É lamentável ver a violência contra a liberdade, a estupidez em tentar engessar o discurso literário e a tentativa de escamotear um problema de ordem histórica, política e social. Sim, o racismo sustenta as bases históricas de nossa sociedade e é o crime mais perfeito que cometemos.  Não é censurando e promovendo uma ‘ caça as bruxas’ às obras do Monteiro Lobato que resolveremos a situação. 
Ademais, duvido muito que uma criança teça um olhar tão limitado a uma obra literária. Porque estúpidos são os adultos, não elas.

6 comentários:

  1. Olá!!!

    Li o primeiro post e não consegui parar mais... Adorei o seu blog!!!
    Voltarei sempre!!!

    Beijos!!!

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    1. Obrigada pela visita! Fique à vontade, ' a casa é sua ' ;)

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  2. Uau!
    Simplesmente sensacional.
    Concordo plenamente contigo. Meus pais nunca censuraram nenhuma leitura, eu tinha todos os livros à minha disposição em nossa casa. A leitura não nos ensina "o que" pensar. Ao ler nós exercitamos o discernimento, o questionamento, a não aceitação de ideias pré-concebidas, a imaginação, enfim.
    Texto perfeito que merece ser compartilhado.

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  3. Fui direcionada pra cá por Dona Coisinha, Tita!
    Ela mostrou-me o caminho e por ele estou seguindo.
    Parabéns.
    Beth.

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  4. Eu adorei o seu texto, é lirico e eu me identifiquei tanto com os seus devaneios... Porque minha vida de criança e adolescente foi bem assim, mudaram alguns autores mais o conjunto da obra é bem isso. A literatura é magica!

    E sim, é verdade que Monteiro Lobato abre as portas para um mundo cultural ocidental, eu conheci muito mais sobre Mitologia Grega através dos "Doze Trabalhos de Hércules" e viajei pelo caminho do "folclore" brasileiro através do "Saci" sem contar na aventura que foi "As caçadas de Pedrinho".

    Assim como também é verdade que ele era racista, como aliás era o mundo de sua época, as teorias eugenistas estavam na moda sendo alavancadas pela toda poderosa Ciência com C maiúsculo mesmo. Mas, censurar não é um caminho, o caminho é incentivar a leitura critica de Monteiro Lobato, perceber o autor em seu presente e fazer com ele o que faz a mágica da literatura funcionar, ou seja, interpretar o texto.

    Aliás, eu penso que nos últimos 100 anos até mesmo o conceito de infância mudou, as crianças das histórias de Monteiro Lobato são o que hoje chamamos de pré-adolescente e pessoalmente acho que os pré-adolescentes são o publico mais e ao universo do Sítio.

    Li Monteiro Lobato durante a pré-adolescência, reli durante meus dias de adulta para pesquisar e entender onde está as teorias racista que eram moda na época, e percebi que as crianças do Sítio são o que hoje chamaríamos de pré-adolescentes.

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  5. Assino embaixo, nada mais a acrescentar. Perfeito.

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