Das chegadas...


 ... Chegava à casa, abria a cancela, chegava à casa , desapeava do cavalo, chegava em casa. A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por-meio; Doralda o esperava. Podia estar vestida de comum, ou como estivesse : era aquela onceira macieza nos movimentos, o rebrilho  nos olhos acinte , o nariz que bulia - parecei que a roupa ia ficando de repente folgada , muito larga para ela, que ia sair de repente , risonha e escorregosa , nua , de de dentro daquela roupa. Estavam deitados; um cachorro latia em alguma parte;  Soropita tinha suas armas, o revólver grande debaixo da cama , o oxidado , o ' crioulo' , ou a automática, debaixo do travesseiro. Se era nas águas, chuviscava lá fora, a gente seguia o merecido empapar da terra, do demolhar das grandes folhagens. Agora, era a seca, o friinho feliz, que enrugava tudo.
Doralda lá, esperando querendo seu marido chegar, apear  e entrar. Ao que era, um pássaro que ele tivesse, de voável desejo, sem estar engaiolado, pássaro de muitos brilhos, muitas cores, cantando alegre, estalado, de dobrar . Chegar de volta em casa  era mais uma festa quieta , só para o compor da gente mesmo, seu sim, seu salvo. De tão esplêndido, tão sem comparação, perturbando tanto, que sombreava um medo de susto, o receio de devir alguma coisa má, desastre ou notícia , que , na última da hora , atravessasse entre a gente e a alegria, vindo do fundo do mundo contra as pessôas ...



Guimarães Rosa - Noites do Sertão 

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