quarta-feira, 25 de setembro de 2013

De Capitu ...




"Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros… Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. A boca podia ser o cálix, os lábios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende e é a língua católica dos homens. Não me tenhas por sacrilégio, leitora minha devota a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. Estávamos ali com o céu em nossas mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham…"







Machado de Assis

Olhos nos olhos....


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Da amizade.



Tenho me assustado com a maldade e também muito com a bondade excessiva. Não compreendo pessoas que forçam as coisas, as situações para se mostrarem agradáveis, prestativas. 
Assusto-me mais ainda com aquelas pessoas que tratam o outro como mercadoria. Amigo é objeto de posse. Cerceada a liberdade, o amigo não pode mostrar sintonia de afinidades com outra pessoa. Certamente ele foi roubado de forma fria e calculista por outrem. Certamente, ele também não tem vontades, não sente e não pensa. É gente ou robô? 

Amigos escolho não pela idade, mas pela singularidade de alma. E por eles sou escolhida. É questão de encontro, de estar dentro. De ser verdade antes e sempre. E de perceber o outro com sangue na veia e tudo – não apenas como refúgio para descanso dos meus dilemas e fraquezas.

Quem diz o contrário, muito está por fora.  e Dificilmente segura 'um olhar que demora'.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Da Alma.








Esquisito o que vou dizer: a alma é uma biblioteca.


Nela se encontram as estórias que amamos.
Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, O paciente inglês, As pontes de Madison, Amor nos tempos do cólera, A menina e o pássaro encantado. As estórias que amamos revelam a forma do nosso desejo.


Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Aos Apaixonados”

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Só sei ...

Ele queria explicar a nossa história.


Eu também queria entender.

Tanto tempo,   tantos encontros e ainda não descobrimos as razões.

Por que gosto dele?

Talvez por causa da calma bonita bordada em sua  voz,  por suas falas, que sintonizam tanto com as minhas (...) Talvez a causa esteja nos efeitos líricos que me assaltam todas as vezes que o vejo e na poesia que nos anuncia, sempre-e-tanto?

Não sei.

Quem sabe seja por causa daquela delicadeza que  exala quando  fixo nele o meu olhar,  e percebo um quê de abando em seus olhos e ainda,  aquela fragilidade escondida que só eu vejo..

 Talvez ame os  medos que ele nem sabe, mas sente.

Estar com ele é sempre como atravessar-me. É andar por Sevilha. É estar no  Pont des Arts .

Quem sabe  eu goste dele por alguma coisa muito mais simples.

Talvez porque meu acolhimento  alcança e abraça sua melancolia.

Talvez porque abraçando, sinto abraçada a solidão que é só minha.

Não sei.

Não. .. Desconfio que também não seja por sua inteligência,  pela gentileza presente em cada gesto , tampouco por suas mãos que sempre desenham  flores docemente  em minha pele.

Só o que sei é que não escolhi gostar dele.

Gostar dele é que me escolheu.

Sei também que a singular e impiedosa intensidade que há entre nós dispensa toda e qualquer explicação.


Definitivamente.

domingo, 8 de setembro de 2013

Quero.



Quero o primeiro bom-dia.  E poesia compartilhada como presente. Quero ir às compras todo fim de mês.E as suas  palavras mais acertadas para a minha coragem. Quero um abraço teu em meio à chuva.  Quero ainda aprender a cozinhar. Dividir o sofá e ver o jogo do SPFC , quero levar o cachorro que nem tenho para passear, quero mãos dadas, quero ver um filme , quero nem ver o tal filme. Quero ler . Que o livro também nos seja uma forma de comunhão. Quero a doce certeza de que ao estender as mãos encontrarei as tuas, quero telefonemas inesperados, recadinhos na geladeira e sms que anunciem cuidado. Nada de  flores, apenas um ipê-roxo na nossa janela. Quero estender a toalha da mesa enquanto você põe os pratos, quero um vinho tinto, quero você a tocar violão, quero contar da minha infância, quero ouvir sobre o seu dia, quero entrelaçar os dedos, quero velar o teu sono, aparar em teu corpo a nossa eternidade até a próxima manhã. e a próxima. e a próxima... sem cessar.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

" Amor começa tarde"




'O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado do que quem vive feliz. Não se pode ceder, Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.'