sábado, 28 de julho de 2012

Gratuidade das Aves e dos Lírios



'Sempre que a gratuidade ousa em minhas palavras, 
elas são abençoadas por pássaros e por lírios.

Os pássaros conduzem o homem para o azul, 
para as águas, para as árvores e para o amor.

Ser escolhido por um pássaro para ser a árvore dele: 
eis o orgulho de uma árvore.

Ser ferido de silêncio pelo vôo dos pássaros: 
eis o esplendor do silêncio.

Ser escolhido pelas garças para ser o rio delas: 
eis a vaidade dos rios.

Por outro lado, o orgulho dos brejos é o de serem escolhidos 
por lírios que lhes entregarão a inocência.

(Sei entrementes que a ciência faz cópia de ovelhas, que a ciência produz seres em vidros -louvo a ciência por seus benefícios à humanidade, mas não concordo que a ciência não se aplique em produzir encantamentos.)

Por quê não medir, por exemplo, a extensão do exílio das cigarras?

Por quê não medir a relação de amor que os pássaros tem com as brisas da manhã?

Por quê não medir a amorosa penetração das chuvas no dentro da terra?

Eu queria aprofundar o que não sei, como fazem os cientistas, mas só na área dos encantamentos.

Queria que um ferrolho fechasse o meu silêncio, 
para eu sentir melhor as coisas incriadas.

Queria poder ouvir as conchas quando elas se desprendem da existência.

Queria descobrir por quê os pássaros escolhem a amplidão para viver 
enquanto os homens escolhem ficar encerrados em suas paredes.

Sou leso em tratar com máquina; mas inventei, para meu gasto, 
um Aferidor de Encantamentos.

Queria medir os encantos que existem nas coisas sem importância.

Eu descobri que o sol, o mar, as árvores e os arrebóis são mais enriquecidos pelos pássaros do que pelos homens.

Eu descobri, com o meu Aferidor de Encantamentos, que as violetas e as rosas e as acácias são mais filiadas dos pássaros do que os cientistas.

Porque eu entendo, desde a minha pobre percepção, que o vencedor, no fim das contas, é aquele que atinge o inútil dos pássaros e dos lírios do campo.

Ah, que estas palavras gratuitas possam agora servir de abrigo para todos os pássaros do mundo!'

Manoel De Barros

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Amizade : para lembrar de celebrar muito mais.





A Amizade é um dos amores mais lindos. 

A melhor casa, melhor cara, arma e poesia.
O nosso acordar mais bonito.


Priscila Rôde.

sábado, 14 de julho de 2012

Dispa-me..Dispa-me..



A noite/1


Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras.Se pudesse, diria  a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada na minha garganta.


A noite/2


- Arranque-me, senhora, a roupa e as dúvidas. Dispa-me, dispa-me.




A noite/3


Eu adormeço as margens de uma mulher: eu adormeço as margens de um abismo.




A noite/4


Solto-me do abraço, saio as ruas. No céu, já clareando, desenha-se, finita, a lua. A lua tem duas noites de idade. Eu, uma.




Eduardo Galeano  In O Livro dos Abraços 


Frêmito do meu corpo a procurar-te.
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,
Olhos buscando os teu por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,

Que nada existe que a mitigue e a farte!
E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...
E o meu coração que tu não sentes,

Vai boando ao acaso das correntes,

Esquife negro sobre um mar de chamas...

Florbela Espanca



domingo, 8 de julho de 2012



...ensinem-me a maneira de dar leis ao coração!"

(Florbela Espanca)

Memória.


A memória guardará o que valer a pena.

A memória sabe de mim mais que eu;
e ela não perde o que merece ser salvo.


(Eduardo Galeano)

sábado, 7 de julho de 2012

Desses amores..


"Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

Guimarães Rosa